terça-feira, 22 de junho de 2010

A culpa é mesmo das pedagogas?


A postagem de hoje pode parecer um pouco esquisita aqueles que me conhecem melhor. Via-de-regra discordo do Luís Augusto Fischer. Nada pessoal, conversei com ele algumas vezes, até o achei simpático, mas nossos pontos de vista em diversos aspectos são “cronicamente inviáveis”. Ele é colorado, eu gremista. Ele gosta de autores que me causam erisipela. Detesta, ou ao menos milita contra o modernismo de 1922, tema que estudo. Ele é midiático e uma espécie de guru de uma pensée portoalegrense da qual fujo como o Diabo da cruz.

Mas, como não desgosto do que ele escreve de antemão, quase sempre o leio. No jornal Zero Hora de hoje, ele tratou de um tema que me interessa muito e, portanto, quero comentar algumas passagens dessa crônica e testar nossa incompatibilidade.
Fischer intitulou sua crônica “A professora assaltada”. Tomando o caso de uma professora que foi assaltada por seus alunos, ele tira o foco da criminalidade para falar do crime de lesa-educação que todos sofremos, qual seja, o discurso imperante entre os “gestores de educação” sobre métodos de ensino e sobre avaliação. Cito a passagem (um pouco longa) que é o “miolo” de seu texto e interpolo algumas observações:

Mas há um inimigo do professor e da educação que está, ou deveria estar, ao alcance do gestor da educação. Esse inimigo é a mentalidade anti-intelectual e anticientífica de grande parte dos pedagogos e dos próprios gestores da educação, em nossos tempos. [Em nossos tempos? A mentalidade anti-intelectual é uma característica destacada sobre os brasileiros desde o começo do século XIX. Alunos preguiçosos e pouco interessados são registrados desde, ao menos, os gregos do século V a.C.!]

Sabe onde se esconde esse inimigo? Na recusa à cobrança de conteúdos. No repúdio à prova de conhecimentos. No menosprezo à leitura de livros clássicos. Na ridicularização do professor que quer dar aulas expositivas. No endeusamento de parcialíssimas premissas do dito construtivismo. Na fantasia da aquisição e da construção do conhecimento como coisa indolor e acessível aos que não se esforçam. [Estudar requer, evidentemente, disciplina. Repudio igualmente a lógica atribuída aos construtivistas de que há aprendizado sem esforço e de que tudo deve ser lúdico. O jogo, o prazer, está presente no processo de descoberta científica, mas nunca chegaremos a ele sem todo o período de aprendizado, feito em muitos casos de sofrimento. Agora, atribuir o caos de nossa educação aos “gestores de educação” é de um simplismo retumbante. Então, antes dos construtivistas, tínhamos gênios brotando do chão feito capim?]

Concordo com ele, ao menos na preocupação que demonstra. A lógica do aluno cliente, estimulada por algumas instituições privadas de ensino (lógica que vemos tristemente imperante das escolinhas de educação infantil ao ensino superior), exige dos docentes o malabarismo de nunca frustrar ninguém, de nunca corrigir, de poucas vezes conseguir distinguir o certo e o errado. Ora, se por um lado não queremos uma escola como aquela apresentada em The Wall, do Pink Floyd, por outro lado ainda precisamos de uma escola que cumpra a sua função primordial: ensinar, ou ao menos despertar nos alunos o tesão pela aquisição de conhecimentos.

Gostaria de destacar ainda a sua menção à mentalidade anti-intelectual imperante. Bueno, esse é um problema complexo e que merece maior discussão do que as parcas linhas de uma crônica. Mas, convenhamos, não se trata de um problema novo. Ele está na base da formação histórica do Brasil e ele segue se reproduzindo com muita força, em todas as partes. Há uma quantidade incrível de alunos que estão no ensino superior e se recusam a ler – e este é um fenômeno perceptível em toda e qualquer instituição (universidades federais, estaduais e privadas, com sutis diferenças, ainda que seja comum a todas). Além de muitos se recusarem terminantemente a ler, trazem na bagagem uma formação escolar muito precária.

Não adianta mais se perguntar sobre a origem do problema: se é o país, a escola, a pobreza ou o escambau. Mas o fato é que o problema existe. Talvez por me sentir solitário e por ser, na realidade, um pouco tímido, sempre gostei muito de ler. Fui, mais de uma vez, incompreendido na escola. Achando que as coisas mudariam no curso superior, nova decepção. Lembro de ter ouvido de um professor que tive na graduação que eu era grosseiro com meus colegas por mencionar o tempo todo livros que eu havia lido e eles não. Nunca ocorreu a ele que essa era (e continua sendo) minha forma preferencial de comunicação. E o que é pior: a falta de cultura dos demais era premiada (e mesmo estimulada) no momento em que eu era repreendido!

Nos cursos de mestrado e de doutorado, sempre aumentam as chances de conhecermos pessoas com compatibilidade de interesses e com experiências semelhantes. Mas é triste perceber que estejamos diante de uma geração de jovens pós-graduandos com lacunas imensas em sua formação, fazendo com que a bola de neve só aumente e ganhe velocidade.

Assim, vou me dando por conta de que o texto do Fischer foi, como para ele a história da professora assaltada, apenas um mote. E, na verdade, confirmei a hipótese de que, em geral eu discordo dele. Acho que é “jogar para a torcida” colocar a culpa na conta das “pedagogas”. Fico me perguntando sobre o impacto positivo na formação dos alunos ou do público leitor de obras como o “Dicionário de Porto-Alegrês”, livro, no máximo, engraçado. Feito, diga-se, ao gosto dos anti-intelectuais. Cheio de piadinhas, sem nenhuma discussão sobre os aspectos lingüísticos e, como não poderia deixar de ser, best-seller em um estado e uma cidade que adoram olhar para o seu umbigo.

Sobre os dilemas do anti-intelectualismo, duas publicações disponíveis em português mostram que, lamentavelmente, as coisas não andam tão boas assim em outros países, ainda que eles continuem a milhões de km à nossa frente:

Dietrich Schwanitz. Cultura Geral. SP: Martins Fontes.

Michael Dirda. O prazer de ler os clássicos. Martins Fontes.

O primeiro é um manual que procura sintetizar tudo o um “cidadão civilizado” deve saber sobre arte, música, história e tudo o mais. Um profundo lamento de um erudito que via o mundo que ele estudou ao longo da vida, erodir. O segundo é uma viagem pelos clássicos da literatura ocidental, tentando, de alguma forma, provar que eles valem a pena.

4 comentários:

  1. Tenho pensado que é a culpa na real é minha por ainda ter alguma esperança no ser humano.

    Fazer uma segunda graduação tem sido interessante para reafirmar a visão de que as pessoas não ligam para nada. Eu fico pensando o porquê de alguém fazer um curso de Letras se afirma com veemência que ODEIA ler.

    O problema, como bem dissestes, existe, indiferente a raiz dele. Na posição que assumi de observador das coisas, percebo que tal problema é alimentado por todos os lados: por alunos preguiçosos que não querem nada, por professores preguiçosos que também não querem nada e que quando querem nivelam por baixo. Particularmente, eu não me preocupo com o fato de ninguém querer nada com nada, quero mais que todos se explodam, mas é triste ver que nesse processo eu acabo sendo prejudicado, pois por mais que eu me esforce no final a burrice da maioria prevalece (como na tua graduação, em que a preguiça dos outros era premiada e teu empenho relegado a capricho e esnobismo).

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  2. Caro Nathaniel, na realidade, eu acho que o equívoco maior é o de acreditarmos que pode haver uma saída coletiva e que podemos mudar alguma coisa na educação olhando sempre para os interesses da maioria dos alunos. Parece estranho dizer isso, mas o professor só dá uma boa aula quando dá essa aula para si próprio e não pensando naquilo que os alunos querem. Quem precisa saber o que deseja com essa ou aquela atividade é o professor, não o aluno. Se o professor (qualquer professor hipotético) for realmente deixar nas mãos dos alunos a escolha daquilo que deve ser feito, é sinal de que ele não está nem um pouco preocupado com o que ele está fazendo.
    Em tese, ao menos, é o professor que deve saber o que é melhor para o aluno e não o contrário, assim como quem deve recomendar o tratamento é o médico, não o paciente, mal comparando. A maior de todas as hipocrisias é a atitude do professor que cobra pouco ou não cobra dos seus alunos, dizendo a eles que entende a sua situação. Esse é o mesmo cara que chega na sala dos professores é esculacha os alunos, dizendo que, afinal de contas, eles são muito limitados. Todas as vezes que eu passei por grosseiro ou intransigente com relação as turmas com as quais trabalhei, e tu viu isso acontecer, eu não estava pensando em mim ou sendo sádico, eu estava pensando nos alunos, até por me identificar com eles, por não ter nascido em berço de ouro e por acreditar que, em alguma medida, eu fui "salvo" pela educação, pela cultura adquirida ao longo da vida. Salvo tanto psicológica quanto financeiramente. Logo, em uma boutade, poderíamos dizer que a educação é algo muito sério para ficar nas mãos de muitos professores que andam por aí...

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  3. Ralph Schibelbein24 de junho de 2010 17:01

    No Grenal estabelecido no campo das idéias ficaria, apesar de ser gremista (não praticante), com o Fischer. Gosto e procuro acompanhar o que ele escreve e diz nos diferentes meios em que freqüenta.

    Por coincidência hoje mesmo li o texto do Fischer na internet, por ele inclusive que cheguei até aqui. Enquanto lia o Colorado minha saudável “implicância” com as pedagogas foi acariciada. Porém ao terminar o texto, primeiro discordei e depois busquei fazer uma revisão mais profunda sobre meu papel em sala aula.

    Após ler a critica do Gremista, primeiro concordei, depois viajei novamente para o Ralph enquanto professor.

    Cheguei a 3 conclusões:

    1)(Em tempo de copa do mundo) Se o futebol estivesse tão interessante quanto as letras, dedicaria mais tempo ao mundial!

    2) Sempre achei que entre o azul e o vermelho tem um verde, que me cai melhor!
    (da moda, do futebol e das idéias)

    3) É a mistura do azul com o vermelho que formam o verde. (Se não nas cores, sim nas letras/idéias)

    Abraço professor!

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  4. Ralph, em primeiro lugar,quero te agradecer muitíssimo pela leitura e pela visita ao blog. Sabes bem que não tenho nenhuma simpatia a priori pela pedagogas, mas usei-as como ponto de partida porque de modo geral achei os argumentos da crônica simplistas. É bem possível que, no dia do juízo final, a balança penda contra as pedagogas. Agora, convenhamos, acreditar que a maior parte dos nossos problemas na escola se devem ao construtivismo, para mim, é demais.
    Saúde e sorte!

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