
A postagem de hoje pode parecer um pouco esquisita aqueles que me conhecem melhor. Via-de-regra discordo do Luís Augusto Fischer. Nada pessoal, conversei com ele algumas vezes, até o achei simpático, mas nossos pontos de vista em diversos aspectos são “cronicamente inviáveis”. Ele é colorado, eu gremista. Ele gosta de autores que me causam erisipela. Detesta, ou ao menos milita contra o modernismo de 1922, tema que estudo. Ele é midiático e uma espécie de guru de uma pensée portoalegrense da qual fujo como o Diabo da cruz.
Mas, como não desgosto do que ele escreve de antemão, quase sempre o leio. No jornal Zero Hora de hoje, ele tratou de um tema que me interessa muito e, portanto, quero comentar algumas passagens dessa crônica e testar nossa incompatibilidade.
Fischer intitulou sua crônica “A professora assaltada”. Tomando o caso de uma professora que foi assaltada por seus alunos, ele tira o foco da criminalidade para falar do crime de lesa-educação que todos sofremos, qual seja, o discurso imperante entre os “gestores de educação” sobre métodos de ensino e sobre avaliação. Cito a passagem (um pouco longa) que é o “miolo” de seu texto e interpolo algumas observações:
Mas há um inimigo do professor e da educação que está, ou deveria estar, ao alcance do gestor da educação. Esse inimigo é a mentalidade anti-intelectual e anticientífica de grande parte dos pedagogos e dos próprios gestores da educação, em nossos tempos. [Em nossos tempos? A mentalidade anti-intelectual é uma característica destacada sobre os brasileiros desde o começo do século XIX. Alunos preguiçosos e pouco interessados são registrados desde, ao menos, os gregos do século V a.C.!]
Sabe onde se esconde esse inimigo? Na recusa à cobrança de conteúdos. No repúdio à prova de conhecimentos. No menosprezo à leitura de livros clássicos. Na ridicularização do professor que quer dar aulas expositivas. No endeusamento de parcialíssimas premissas do dito construtivismo. Na fantasia da aquisição e da construção do conhecimento como coisa indolor e acessível aos que não se esforçam. [Estudar requer, evidentemente, disciplina. Repudio igualmente a lógica atribuída aos construtivistas de que há aprendizado sem esforço e de que tudo deve ser lúdico. O jogo, o prazer, está presente no processo de descoberta científica, mas nunca chegaremos a ele sem todo o período de aprendizado, feito em muitos casos de sofrimento. Agora, atribuir o caos de nossa educação aos “gestores de educação” é de um simplismo retumbante. Então, antes dos construtivistas, tínhamos gênios brotando do chão feito capim?]
Concordo com ele, ao menos na preocupação que demonstra. A lógica do aluno cliente, estimulada por algumas instituições privadas de ensino (lógica que vemos tristemente imperante das escolinhas de educação infantil ao ensino superior), exige dos docentes o malabarismo de nunca frustrar ninguém, de nunca corrigir, de poucas vezes conseguir distinguir o certo e o errado. Ora, se por um lado não queremos uma escola como aquela apresentada em
The Wall, do Pink Floyd, por outro lado ainda precisamos de uma escola que cumpra a sua função primordial: ensinar, ou ao menos despertar nos alunos o tesão pela aquisição de conhecimentos.
Gostaria de destacar ainda a sua menção à mentalidade anti-intelectual imperante. Bueno, esse é um problema complexo e que merece maior discussão do que as parcas linhas de uma crônica. Mas, convenhamos, não se trata de um problema novo. Ele está na base da formação histórica do Brasil e ele segue se reproduzindo com muita força, em todas as partes. Há uma quantidade incrível de alunos que estão no ensino superior e se recusam a ler – e este é um fenômeno perceptível em toda e qualquer instituição (universidades federais, estaduais e privadas, com sutis diferenças, ainda que seja comum a todas). Além de muitos se recusarem terminantemente a ler, trazem na bagagem uma formação escolar muito precária.
Não adianta mais se perguntar sobre a origem do problema: se é o país, a escola, a pobreza ou o escambau. Mas o fato é que o problema existe. Talvez por me sentir solitário e por ser, na realidade, um pouco tímido, sempre gostei muito de ler. Fui, mais de uma vez, incompreendido na escola. Achando que as coisas mudariam no curso superior, nova decepção. Lembro de ter ouvido de um professor que tive na graduação que eu era grosseiro com meus colegas por mencionar o tempo todo livros que eu havia lido e eles não. Nunca ocorreu a ele que essa era (e continua sendo) minha forma preferencial de comunicação. E o que é pior: a falta de cultura dos demais era premiada (e mesmo estimulada) no momento em que eu era repreendido!
Nos cursos de mestrado e de doutorado, sempre aumentam as chances de conhecermos pessoas com compatibilidade de interesses e com experiências semelhantes. Mas é triste perceber que estejamos diante de uma geração de jovens pós-graduandos com lacunas imensas em sua formação, fazendo com que a bola de neve só aumente e ganhe velocidade.
Assim, vou me dando por conta de que o texto do Fischer foi, como para ele a história da professora assaltada, apenas um mote. E, na verdade, confirmei a hipótese de que, em geral eu discordo dele. Acho que é “jogar para a torcida” colocar a culpa na conta das “pedagogas”. Fico me perguntando sobre o impacto positivo na formação dos alunos ou do público leitor de obras como o “Dicionário de Porto-Alegrês”, livro, no máximo, engraçado. Feito, diga-se, ao gosto dos anti-intelectuais. Cheio de piadinhas, sem nenhuma discussão sobre os aspectos lingüísticos e, como não poderia deixar de ser, best-seller em um estado e uma cidade que adoram olhar para o seu umbigo.
Sobre os dilemas do anti-intelectualismo, duas publicações disponíveis em português mostram que, lamentavelmente, as coisas não andam tão boas assim em outros países, ainda que eles continuem a milhões de km à nossa frente:
Dietrich Schwanitz. Cultura Geral. SP: Martins Fontes.
Michael Dirda. O prazer de ler os clássicos. Martins Fontes.
O primeiro é um manual que procura sintetizar tudo o um “cidadão civilizado” deve saber sobre arte, música, história e tudo o mais. Um profundo lamento de um erudito que via o mundo que ele estudou ao longo da vida, erodir. O segundo é uma viagem pelos clássicos da literatura ocidental, tentando, de alguma forma, provar que eles valem a pena.