
Confesso que não curto muito o cinema de Jorge Furtado. E nem falo dos curtas mais antológicos, como "O dia em que Dorival encarou a guarda" ou "A Ilha das Flores, verdadeiro xodó dos professores de sociologia. Ambos são bem interessantes, inauguram a sua linguagem cinematográfica e blá blá blá. Falo dos longas. Assisti "O homem que copiava e não achei nada demais". Ainda assim, há uma pequena referência aos Sonetos de Shakespeare que de certa forma amarra a relação amorosa dos protagonistas.
O cineasta é um grande apreciador da obra do bardo. Juntando peças, dei de cara com um comentário muito interessante em um blog sobre as traduções orientadas por ele dos Sonetos e fui ver o livro. Gostei, confesso. Já havia visto uma tradução dele para "Alice", também bastante boa. Seu bom gosto literário me leva a assistir os seus filmes. Vou encarar e depois comento aqui. Em homenagem, reproduzo abaixo três versões para o mesmo soneto, duas do Furtado e uma de outro tradutor. Gosto muito das duas do Furtado. Ah, vale dizer que a comparação não é uma idéia minha, é coisa do blogueiro onde li pela primeira vez a resenha da tradução. Simplesmente reproduzo para os milhões de leitores deste blog.
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Farto de tudo, clamo a paz da morte
Ao ver quem de valor penar em vida
E os mais inúteis com riqueza e sorte
E a fé mais pura triste ao ser traída
E altas honras a quem vale nada
E a virtude virginal prostituída
E a plena perfeição caluniada
E a força, vacilante, enfraquecida
E o déspota calar a voz da arte
E o néscio, feito um sébio, decidindo
E o todo, simples, tido como parte
E o bom a mau patrão servindo
Farto de tudo, penso, parto sem dor
Mas se partir, deixo só o meu amor
(Soneto nº 66 por Jorge Furtado, p.82)
De saco cheio, mando tudo às picas
Ao ver só gente boa se ferrando
E as mais escrotas rindo à toa, ricas
E as crentes, puras, só no cú levando
E prêmios dados a um monte de bostas
E virgens puras pagando boquetes
E a perfeição xingada pelas costas
E os fortões entubando croquetes
E a cultura virar supositório
E a chusma de imbecis cagando regras
O bom e simples tido por simplório
O mal triunfa e o bem toma nas pregas
De saco cheio, vão todos se fuder!
Só o que eu não posso é meu amor perder
(Soneto nº 66 por Jorge Furtado, p.83)
Farto de tudo, imploro a morte sossegada
Quando vejo o valor vestido como um pobre
E com luxo trajado o miserável nada,
E perjurada, por desgraça, a fé mais nobre,
E vergonhosamente a honra mal situada,
E a virginal virtude em lama prostituída,
E por coxo exercício a força invalidada,
E a justa perfeição do apreço decaída,
E julgando a perícia a doutoral tolice,
E atando a língua da arte o arbítrio oficial,
E a mais simples verdade achada parvoíce,
E o bem seguindo preso o comandante mal:
Farto, eu queria estar já morto e descansado,
Se não deixasse o meu amor abandonado.
(Soneto nº 66 por Péricles Eugênio)
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Fiz essa postagem no dia 24/06 e aproveito para emendá-la. Meu amigo Nathaniel oportunamente me lembra que não coloquei o original no corpo da mensagem e enviou o mesmo em seu comentário. Puxo o poema do bardo para o corpo da mensagem e agradeço a lembrança. (27/06)
SONNET 66
Tired with all these, for restful death I cry,
As, to behold desert a beggar born,
And needy nothing trimm'd in jollity,
And purest faith unhappily forsworn,
And guilded honour shamefully misplaced,
And maiden virtue rudely strumpeted,
And right perfection wrongfully disgraced,
And strength by limping sway disabled,
And art made tongue-tied by authority,
And folly doctor-like controlling skill,
And simple truth miscall'd simplicity,
And captive good attending captain ill:
Tired with all these, from these would I be gone,
Save that, to die, I leave my love alone."