
Sempre me perguntei sobre a recusa que marca a trajetória de Elias Canetti como escritor. Não se trata de uma recusa da escrita, ele sempre a exercitou, mas sim uma recusa do romance. Depois de Auto de Fé (1935), guinou suas atividades para o ensaísmo e para o memorialismo. São por demais conhecidos a trilogia de memórias e Massa e Poder (1960) para que eu os torture com a brevidade e com a tautologia de um comentário de blog.
A escrita para Canetti era um exercício constante. Milhares de páginas, no entanto, permanecem trancafiadas no anonimato exigido pelo seu autor. Somente aos poucos temos acesso aos seus escritos, aos seus excertos e as suas anotações. Chegaram ao Brasil em recentes traduções livros como as suas memórias dos tempos de exílio na Inglaterra e coletâneas de pequenos ensaios e excertos como Sobre a Morte e Sobre os escritores.
Este último, que acabei de ler, o recomendo muitíssimo. Nele, Canetti exerce uma arte de caracterização breve, do retrato e do juízo sintético sobre idéias e escritores como em poucos lugares poderíamos encontrar com semelhante grandeza. São pontos altos do livro os ensaios sobre Büchner e sobre Karl Kraus.