quinta-feira, 29 de abril de 2010

Plágio não!


Nem só de bobagens vive a internet, isso já é sabido há muito tempo. No entanto, do alto de meu ceticismo, não podia imaginar que encontraria uma jóia rara como o blog “Não gosto de plágio”. Editado por Denise Bottmann, tradutora de obras e autores importantes como Marguerite Duras, Giulio Carlo Argan, Peter Gay, e poderíamos seguir muito adiante, pois a lista é longa, “Não gosto de plágio” é uma verdadeira trincheira aberta em defesa daqueles que gostam de literatura e de profissionais da área, como os tradutores.
Ali, corajosamente, são demonstradas a sinecura e a má-fé de diversas “editoras” como Martin Claret e outras tantas. São comparadas as edições atuais de obras clássicas, em geral com direitos vencidos, com as edições mais antigas. Cópias idênticas, sem cuidado algum, tradutores “laranja” e outras picaretagens que fariam Al Capone parecer um amador.
Imagino que o off do blog seja muito interessante. Editores desmascarados devem berrar, e muito. Mas seguramente Denise poderá contar com a classe política brasileira, que, pelo amor ao conhecimento que sempre alimentou, irá apoiar iniciativas como a sua com políticas públicas que punam os malandros e apoiem os justos...
De nossa parte, de todos, o que importa é divulgar esse extraordinário trabalho. Ver:

http://naogostodeplagio.blogspot.com/

terça-feira, 27 de abril de 2010

Paladas de Alexandria

Paladas de Alexandria (360 a 430 ou 316 a ?), grego do período de decadência da cultura clássica, é um dos testemunhos mais vivos da transição do mundo antigo, sendo ele poeta e epigramista pagão de uma deliciosa veia satírica. Se fosse o caso, diria que por conta de sua verve ferina é um dos meus autores preferidos. Há na sua ironia e em suas frases de humor rascante um sentimento de perda, uma vez que ele via ruir um universo de referências frente a intolerância dos cristãos do século IV e V, com sua fúria destruidora de símbolos do paganismo.
Não sou classicista, então não pretendo me espichar em notas sobre Paladas. Recomendo vivamente a leitura de: Paladas de Alexandria. Epigramas. São Paulo: Nova Alexandria, 2001. Edição bilíngue de epigramas selecionados e traduzidos pelo grande José Paulo Paes, acrescida de um belo ensaio introdutório ao tema. Abaixo, algumas passagens de Paladas:

1.
Acaso estamos mortos e só aparentamos
estar vivos, nós gregos caídos em desgraça,
que imaginamos a vida semelhante a um sonho,
ou estamos vivos e foi a vida que morreu?

2.
Ouro, pai dos aduladores, filho da aflição e do cuidado,
não te possuir dá medo e possuir-te aflição

3.
A filha do gramático ajuntou-se e teve uma criança
do gênero masculino, feminino e neutro.

4.
Se lembrares, homem, como foste por teu pai gerado,
esquecerás as idéias de grandeza.
Platão, o sonhador, encheu tua cabeça de empáfia
ao te chamar de imortal, planta celeste.
De barro és feito; por que a presunção? Só fala assim
quem se compraz em fingimentos vistosos.
Mas se buscas a verdade, recorda que vieste de um
ato de luxúria e de uma gota suja.

5.
Quem por desgraça se casou com mulher feia
vê o escuro da noite quando acende as lâmpadas.

6.
Melhor louvar, a repreensão sempre traz inimizade.
Falar mal todavia é puro mel ático.

domingo, 4 de abril de 2010

quinta-feira, 11 de março de 2010

Carta de Monteiro Lobato a Erico Veríssimo


Vejo muito papo (em sua gigantesca maioria furado) sobre a criação literária. Cito abaixo um trecho de uma carta, muito bem humorada, dirigida pelo grande Monteiro Lobato ao Erico Veríssimo. Nela, ao comentar o livro "Gato preto em campo de neve", ele dá a seguinte definição do "estilo":

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E que estilo! A língua te obedece como massa de pão entre os dedos do bom padeiro absolutamente limpo de estáticas - maneirismos, exibicionismos, flores de cera, besteiras. Escrever bem é isso, Veríssimo - é escrever como você escreve - organicamente, como o correntio duma função natural da nossa fisiologia. Escrever bem é mijar. É deixar que o pensamento flua como o à vontade de uma mijada feliz.

Publicado em: Caderno Mais!, FSP, 01/01/95

terça-feira, 9 de fevereiro de 2010

Marcelo Rubens Paiva

Saiu no Estadão e merece ser lido e discutido.

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Sábado, 30 de Janeiro de 2010 | Versão Impressa


Caros generais, almirantes e brigadeiros

Marcelo Rubens Paiva


Eu ia dizer "caros milicos". Não sei se é um termo ofensivo. Estigmatizado é. Preciso enumerar as razões?

Parte da sociedade civil quer rever a Lei da Anistia. Sugeriram a Comissão da Verdade, no desastroso Programa Nacional de Direitos Humanos, que Lula assinou sem ler. Vocês ameaçaram abandonar o governo, caso fosse aprovado.

Na Argentina, Espanha, Portugal, Chile, a anistia a militares envolvidos em crimes contra a humanidade foi revista. Há interesse para uma democracia em purificar o passado.

Aqui, teimam em não abrir mão do perdão. E têm aliados fortes, como o presidente do Supremo, Gilmar Mendes, e o ministro da Defesa, Nelson Jobim, que apesar de civil apareceu num patético uniforme de combate na volta do Haiti. Parecia um clown.

Vocês pertencem a uma nova geração de generais, almirantes, tenentes-brigadeiros. Eram jovens durante a ditadura. Devem ter navegado na contracultura, dançado Raul Seixas, tropicalistas. Usaram cabelos compridos, jeans desbotados? Namoraram ouvindo bossa nova? Assistiram aos filmes do Cinema Novo?

Sabemos que quem mais sofreu repressão depois do Golpe de 64 foram justamente os militares. Muitos foram presos e cassados. Havia até uma organização guerrilheira, a VPR, composta só por militares contra o regime.

Por que abrigar torturadores? Por que não colocá-los num banco de réus, um Tribunal de Nuremberg? Por que não limpar a fama da corporação?

Não se comparem a eles. Não devem nada a eles, que sujaram o nome das Forças Armadas. Vocês devem seguir uma tradição que nos honra, garantiu a República, o fim da ditadura de Getúlio, depois de combater os nazistas, e que hoje lidera a campanha no Haiti.

Sei que nossa relação, que começou quando eu tinha 5 anos, foi contaminada por abusos e absurdos. Culpa da polarização ideológica da época.

Seus antecessores cassaram o meu pai, deputado federal de 34 anos, no Golpe de 64, logo no primeiro Ato Institucional. Pois ele era relator de uma CPI que investigava o dinheiro da CIA para a preparação do golpe, interrogou militares, mostrou cheques depositados em contas para financiar a campanha anticomunista. Sabiam que meu pai nem era comunista?

Ele tentou fugir de Brasília, quando cercaram a cidade. Entrou num teco-teco, decolou, mas ameaçaram derrubar o avião. Ele pousou, saltou do avião ainda em movimento e correu pelo cerrado, sob balas.

Pulou o muro da embaixada da Iugoslávia e lá ficou, meses, até receber o salvo-conduto e se exilar. Passei meu aniversário de 5 anos nessa embaixada. Festão. Achávamos que a ditadura não ia durar. Que ironia...

Da Europa, meu pai enviou uma emocionante carta aos filhos, explicando o que tinha acontecido. Chamava alguns de vocês de "gorilas". Ri muito quando a recebi.

Ainda era 1964, a família imaginava que fosse preciso partir para o exílio e se juntar na França, quando ele entrou clandestinamente no Brasil.

Num voo para o Uruguai, que fazia escala no Rio, pediu para comprar cigarros e cruzou portas, até cair na rua, pegar um táxi e aparecer de surpresa em casa. Naquela época, o controle de passageiros era amador.

Mas veio a luta armada, os primeiros sequestros, e atuavam justamente os filhos dos amigos e seus eleitores - ele foi eleito deputado em 1962 pelos estudantes.

A barra pesou com o AI-5, a repressão caiu matando, e muitos vinham pedir abrigo, grana para fugir. Ele conhecia rotas de fuga. Tinha um aviãozinho. Fernando Gasparian, o melhor amigo dele, sabia que ambos estavam sendo seguidos e fugiu para a Inglaterra. Alertou o meu pai, que continuou no País.

Em 20 de janeiro de 1971, feriado, deu praia. Alguns de vocês invadiram a nossa casa de manhã, apontaram metralhadoras. Depois, se acalmaram. Ficamos com eles 24 horas. Até jogamos baralho. Não pareciam assustadores. Não tive medo. Eram tensos, mas brasileiros normais.

Levaram o meu pai, minha mãe e minha irmã Eliana, de 14 anos. Ele foi torturado e morto na dependência de vocês. A minha mãe ficou presa por 13 dias, e minha irmã, um dia.

Sumiram com o corpo dele, inventaram uma farsa (a de que ele tinha fugido) e não se falou mais no assunto.

Quando, aos 17 anos, fui me alistar na sede do 2º Exército, vivi a humilhação de todos os moleques: nos obrigaram a ficar nus e a correr pelo campo. Era inverno.

Na ficha, eu deveria preencher se o pai era vivo ou morto. Na época, varão de família era dispensado. Não havia espaço para "desaparecido". Deixei em branco.

Levei uma dura do oficial. Não resisti: "Vocês devem saber melhor do que eu se está vivo." Silêncio na sala. Foram consultar um superior. Voltaram sem graça, carimbaram a minha ficha, "dispensado", e saí de lá com a alma lavada.

Então, só em 1996, depois de um decreto-lei do Fernando Henrique, amigo de pôquer do meu pai, o Governo Brasileiro assumiu a responsabilidade sobre os desaparecidos e nos entregou um atestado de óbito.

Até hoje não sabemos o que aconteceu, onde o enterraram e por quê? Meu pai era contra a luta armada. Sabemos que antes de começarem a sessão de tortura, o brigadeiro Burnier lhe disse: "Enfim, deputadozinho, vamos tirar nossas diferenças."

Isso tudo já faz quase 40 anos. A Lei da Anistia, aprovada ainda durante a ditadura, com um Congresso engessado pelo Pacote de Abril, senadores biônicos, não eleitos pelo povo, garante o perdão aos colegas de vocês que participaram da tortura.

Qual o sentido de ter torturadores entre seus pares? Livrem-se deles. Coragem.

terça-feira, 12 de janeiro de 2010


Para aqueles que ainda acham que futebol não é digno de reflexão, um certo Pasolini escrevendo sobre o nobre esporte bretão.
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Este artigo é uma tradução revisada de Maurício Santana Dias para o texto escrito, meses depois da final entre Brasil e Itália na Copa de 1970, pelo cineasta italiano Pier Paolo Pasolini, diretor de filmes como Decameron, Salò, Teorema, Édipo rei.


Futebol de prosa e futebol de poesia

Em meio ao debate atual sobre os problemas linguísticos que separam de forma artificial literatos de jornalistas e jornalistas de jogadores, fui indagado por um gentil repórter do Europeo; mas minhas respostas saíram cortadas e depauperadas no tabloide (por causa das exigências jornalísticas!). Porém, como o assunto me interessa, gostaria de voltar a ele com mais calma e com a plena responsabilidade sobre aquilo que digo. O que é uma língua? “Um sistema de signos”, responde hoje do modo mais exato um semiólogo. Mas esse “sistema de signos” não é apenas, necessariamente, uma língua escrita-falada (esta que usamos agora, eu escrevendo e você, leitor, lendo).
Os “sistemas de signos” podem ser muitos. Vejamos um caso: você, leitor, e eu estamos numa sala onde também estão presentes Ghirelli e Brera [1], e você quer me dizer algo sobre Ghirelli que Brera não deve ouvir. A situação impede que você me fale por meio do sistema de signos verbais, e então é preciso recorrer a outro sistema de signos, por exemplo, o da mímica; aí, você começa a revirar os olhos, a entortar a boca, a agitar as mãos, a ensaiar gestos com os pés etc. Você é o “cifrador” de um discurso “mímico” que eu decifro: isso significa que possuímos em comum um código “italiano” de um sistema de signos mímico.
Outro sistema de signos não verbal é o da pintura; ou o do cinema; ou o da moda (objeto de estudo de um mestre nesse campo, Roland Barthes) etc. O jogo de futebol também é um “sistema de signos”, ou seja, é uma língua, ainda que não verbal. Por que digo isso (que em seguida pretendo desenvolver esquematicamente)? Porque a “querelle” que contrapõe a linguagem dos literatos à dos jornalistas é falsa. E o problema é outro.
Vejamos. Toda língua (sistema de signos escritos-falados) possui um código geral. Tomemos o italiano: usando esse sistema de signos, você, leitor, e eu nos entendemos porque o italiano é um patrimônio nosso, comum, “uma moeda de troca”. Entretanto, cada língua é articulada em várias sublínguas, e cada uma delas possui, por sua vez, um subcódigo: os italianos médicos se compreendem entre si – quando falam o jargão especializado – porque todos eles conhecem o subcódigo da língua médica; os italianos teólogos se compreendem entre si porque detêm o subcódigo do jargão teológico etc. etc.
A língua literária é também uma língua de jargão, com um subcódigo próprio (em poesia, por exemplo, em vez de dizer “speranza” é possível dizer “speme”, mas não estranhamos essa coisa engraçada porque se sabe que o subcódigo da língua literária italiana demanda e admite que, em poesia, sejam usados latinismos, arcaísmos, palavras truncadas etc. etc.).
O jornalismo nada mais é que um ramo menor da língua literária: para compreendê-lo, valemo-nos de uma espécie de subsubcódigo. Em palavras pobres, os jornalistas são apenas escritores que, a fim de vulgarizar e simplificar conceitos e representações, se valem de um código literário, digamos – para ficar no campo esportivo –, de segunda divisão. Assim, a linguagem de Brera é de segunda divisão se comparada à linguagem de Carlo Emilio Gadda e de Gianfranco Contini.[2] E a língua de Brera é, talvez, o caso mais bem qualificado do jornalismo esportivo italiano.
Portanto, não existe conflito “real” entre escrita literária e jornalística: o problema é que esta, coadjuvante como sempre foi, agora exaltada por seu uso na cultura de massa (que não é popular!), encampa pretensões um tanto soberbas, de “parvenu”. Mas vamos ao futebol. O futebol é um sistema de signos, ou seja, uma linguagem. Ele tem todas as características fundamentais da linguagem por excelência, aquela que imediatamente tomamos como termo de comparação, isto é, a linguagem escrita-falada.
De fato as “palavras” da linguagem do futebol são formadas exatamente como as palavras da linguagem escrita-falada. Ora, como elas se formam? Formam-se por meio da chamada “dupla articulação”, isto é, por infinitas combinações dos “fonemas” – que, em italiano, são as 21 letras do alfabeto.
Os “fonemas” são, pois, as “unidades mínimas” da língua escrita-falada. Se quisermos nos divertir definindo a unidade mínima da língua do futebol, podemos dizer: “Um homem que usa os pés para chutar uma bola”. Aí está a unidade mínima, o “podema” (para continuar a brincadeira). As infinitas possibilidades de combinação dos “podemas” formam as “palavras futebolísticas”; e o conjunto das “palavras futebolísticas” constitui um discurso, regulado por normas sintáticas precisas.
Os “podemas” são 22 (mais ou menos como os fonemas): as “palavras futebolísticas” são potencialmente infinitas, porque infinitas são as possibilidades de combinação dos “podemas” (o que, em termos práticos, equivale aos passes de bola entre os jogadores); a sintaxe se exprime na “partida”, que é um verdadeiro discurso dramático. Os cifradores dessa linguagem são os jogadores; nós, nas arquibancadas, somos os decifradores: em comum, possuímos um código.
Quem não conhece o código do futebol não entende o “significado” das suas palavras (os passes) nem o sentido do seu discurso (um conjunto de passes).
Não sou nem Roland Barthes nem Greimas, mas, como diletante, se quisesse, poderia escrever um ensaio sobre a “língua do futebol” bem mais convincente do que este artigo. Aliás, penso que se poderia escrever um belo ensaio intitulado “Propp [3] aplicado ao ludopédio”, já que, sem dúvida, como qualquer língua, o futebol tem seu momento puramente “instrumental”, regulado pelo código de forma rígida e abstrata, e o seu momento “expressivo”.  Há pouco, disse que toda língua se articula em várias sublínguas, cada qual com um subcódigo.
Pois bem, do mesmo modo, com a língua do futebol é possível fazer distinções desse tipo: o futebol também possui subcódigos, na medida em que, de puramente instrumental, se torna expressivo.
Há futebol cuja linguagem é fundamentalmente prosaica e outros cuja linguagem é poética. Para explicar melhor minha tese, darei – antecipando as conclusões – alguns exemplos: Bulgarelli joga um futebol de prosa, é um “prosador realista”; Riva joga um futebol de poesia, é um “poeta realista”. Corso [4] joga um futebol de poesia, mas não é um “poeta realista”: é um poeta meio “maldito”, extravagante.
Note-se que não faço distinção de valor entre a prosa e a poesia; minha distinção é puramente técnica. Entretanto nos entendamos. A literatura italiana, sobretudo a mais recente, é a literatura dos “elzevires”: os escritores são elegantes e, no limite, estetizantes; a substância é quase sempre conservadora e meio provinciana... Em suma, democrata-cristã. Todas as linguagens faladas em um país, mesmo as mais especializadas e espinhosas, têm um terreno comum, que é a cultura desse país: sua atualidade histórica.
Assim, justamente por razões de cultura e de história, o futebol de alguns povos é fundamentalmente de prosa, seja ela realista ou estetizante (este último é o caso da Itália); ao passo que o futebol de outros povos é fundamentalmente de poesia.
Há no futebol momentos que são exclusivamente poéticos: trata-se dos momentos de gol. Cada gol é sempre uma invenção, uma subversão do código: cada gol é fatalidade, fulguração, espanto, irreversibilidade. Precisamente como a palavra poética. O artilheiro de um campeonato é sempre o melhor poeta do ano. Neste momento, Savoldi [6] é o melhor poeta. O futebol que exprime mais gols é o mais poético.
O drible é também em essência poético (embora nem sempre, como a ação do gol). De fato, o sonho de todo jogador (compartilhado por cada espectador) é partir da metade do campo, driblar os adversários e marcar. Se, dentro dos limites permitidos, é possível imaginar algo sublime no futebol, trata-se disso. Mas nunca acontece. É um sonho (que só vi realizado por Franco Franchi [7] nos Mágicos da bola, o qual, apesar do nível tosco, conseguiu ser onírico à perfeição).
Quem são os melhores dribladores do mundo e os melhores fazedores de gols? Os brasileiros. Portanto, o futebol deles é um futebol de poesia – e, de fato, está todo centrado no drible e no gol. A retranca e a triangulação é futebol de prosa: baseia-se na sintaxe, isto é, no jogo coletivo e organizado, na execução racional do código. O seu único momento poético é o contra-ataque seguido do gol (que, como vimos, é necessariamente poético). Em suma, o momento poético do futebol parece ser (como sempre) o momento individual (drible e gol; ou passe inspirado).
O futebol de prosa é o do chamado sistema (o futebol europeu). Nesse esquema, o gol é confiado à conclusão, possivelmente por um “poeta realista” como Riva, mas deve derivar de uma organização de jogo coletivo, fundado por uma série de passagens “geométricas”, executadas segundo as regras do código (nisso Rivera é perfeito, apesar de Brera não gostar porque se trata de uma perfeição meio estetizante, não realista, como a dos meio-campistas ingleses ou alemães).
O futebol de poesia é o latino-americano. Esquema que, para ser realizado, demanda uma capacidade monstruosa de driblar (coisa que na Europa é esnobada em nome da “prosa coletiva”): nele, o gol pode ser inventado por qualquer um e de qualquer posição. Se o drible e o gol são o momento individualista-poético do futebol, o futebol brasileiro é, portanto, um futebol de poesia. Sem fazer distinção de valor, mas em sentido puramente técnico, no México a prosa estetizante italiana foi batida pela poesia brasileira.

Notas
[1] Antonio Ghirelli (1922), jornalista e porta-voz do futuro presidente italiano Alessandro Portini; e Gianni Brera (1919-1992), jornalista esportivo. [N. do E.]
[2] Carlo Emilio Gadda (1893-1973), escritor; e Gianfranco Contini (1912-1990), crítico literário. [N. do E.]
[3] Vladimir Propp (1895-1970), crítico estruturalista russo que analisou as narrativas populares. [N. do E.]

[4] Giacomo Bulgarelli (1940-2009), meio-campista; Luigi Riva (1944), atacante; e Mario Corso (1941), armador. [N. do E.]
[5] Gianni Rivera (1943), meio-campista; Sandro Mazzola (1942), atacante. [N. do E.]
[6] Giuseppe Savoldi (1947), atacante italiano. [N. do E.]
[7] Franco Franchi (1922-1992), um dos principais nomes do cinema cômico italiano. [N. do E.]

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Extraí esse belíssimo texto da página do Instituto Moreira Salles, ao qual agradeço a gentileza. Ver mais em http://ims.uol.com.br/Home/D1

The Clash


Qualquer juízo estético, ainda que exija uma argumentação razoável e amparada em alguns dados objetivos que possam ser cotejados por qualquer um que queira concordar ou discordar daquele que emite esse juízo, expressa muito daquilo que o crítico acredita. Dito isso, lasco a seguinte idéia: a banda de rock mais importante entre os anos 1970 e 1980 foi o The Clash. De um lado, assim como outras bandas surgidas no chamado movimento punk, ajudou a escancarar a estupidez daquele rock hiper-afetado e artificial, praticado tanto pelo hard rock de comercial de xampú quanto pela ego-trip do, na maior parte das vezes soporífero, rock progressivo.
Muitas vezes tosco, direto, com pegada e gritado com paixão, o Punk Rock, em especial o praticado pelo Clash, era a um só tempo divertido, inventivo, irônico e corrosivo em suas críticas sociais. Se o vocalista do Sex Pistols abriu o jogo e deixou claro que o lance deles era grana, os integrantes do The Clash assumiram várias das principais bandeiras políticas da época, como os movimentos comunistas pelo terceiro mundo (como esquecer que um dos álbuns mais malucos deles chamava-se Sandinista, um triplo vendido por exigência deles com preço de simples).
Pela simplicidade, pela inventividade e pela mensagem, verdadeiro lema de uma época, o faça você mesmo, bandas como o Clash, e eu acho que eles são peça fundamental nessa jogada, abriram as portas para o chamado rock dos anos 1980. Antes de pensar que eu sou trouxa, pegue o duplo The Essencial Clash, ouça inteiro e leia a respeito da história da banda.
Dá uma espiada na letra abaixo:

Spanish bombs

Spanish songs in Andalucia
The shooting sites in the days of '39
Oh, please, leave the ventana open
Federico Lorca is dead and gone
Bullet holes in the cemetery walls
The black cars of the Guardia Civil
Spanish bombs on the Costa Rica
I'm flying in a DC 10 tonight

CHORUS
Spanish bombs, yo te quiero Y FINITO
Yo TE GUERDA, oh mi corazon
Spanish bombs, yo te quiero Y FINITO
Yo TE GUERDA, oh mi corazon

Spanish weeks in my disco casino
The freedom fighters died upon the hill
They sang the red flag
They wore the black one
But after they died it was Mockingbird Hill
Back home the buses went up in flashes
The Irish tomb was drenched in blood
Spanish bombs shatter the hotels
My señorita's rose was nipped in the bud

CHORUS
Spanish bombs, yo te quiero Y FINITO
Yo TE GUERDA, oh mi corazon
Spanish bombs, yo te quiero Y FINITO
Yo TE GUERDA, oh mi corazon

The hillsides ring with "Free the people"
Or can I hear the echo from the days of '39?
With trenches full of poets
The ragged army, fixin' bayonets to fight the other line
Spanish bombs rock the province
I'm hearing music from another time
Spanish bombs on the Costa Brava
I'm flying in on a DC 10 tonight

Spanish bombs, yo te quiero Y FINITO
Yo TE GUERDA, oh mi corazon
Spanish bombs, yo te quiero Y FINITO
Yo TE GUERDA, oh mi corazon

Spanish songs in Andalucia, mandolina, oh mi corazon
Spanish songs in Granada, oh mi corazon

quinta-feira, 31 de dezembro de 2009

Elias Canetti


Sempre me perguntei sobre a recusa que marca a trajetória de Elias Canetti como escritor. Não se trata de uma recusa da escrita, ele sempre a exercitou, mas sim uma recusa do romance. Depois de Auto de Fé (1935), guinou suas atividades para o ensaísmo e para o memorialismo. São por demais conhecidos a trilogia de memórias e Massa e Poder (1960) para que eu os torture com a brevidade e com a tautologia de um comentário de blog.
A escrita para Canetti era um exercício constante. Milhares de páginas, no entanto, permanecem trancafiadas no anonimato exigido pelo seu autor. Somente aos poucos temos acesso aos seus escritos, aos seus excertos e as suas anotações. Chegaram ao Brasil em recentes traduções livros como as suas memórias dos tempos de exílio na Inglaterra e coletâneas de pequenos ensaios e excertos como Sobre a Morte e Sobre os escritores.
Este último, que acabei de ler, o recomendo muitíssimo. Nele, Canetti exerce uma arte de caracterização breve, do retrato e do juízo sintético sobre idéias e escritores como em poucos lugares poderíamos encontrar com semelhante grandeza. São pontos altos do livro os ensaios sobre Büchner e sobre Karl Kraus.

terça-feira, 29 de dezembro de 2009

Ghiggia

Justa homenagem a Alcides Ghiggia, o matador. Para quem não gosta de futebol, explico: ele foi o carrasco uruguaio que matou a Seleção Brasileira na Copa de 1950, realizada no Brasil. Agora, tem seus pés na calçada da fama do Maracanã. Os cariocas até hoje não engolem bem aquele momento antológico do futebol mundial, a vitória suprema do futebol-força sobre o futebol bailarino.
A frase mais famosa de Ghiggia é: "Apenas três pessoas calaram o Maracanã: Frank Sinatra, o papa João Paulo II e eu".