domingo, 9 de janeiro de 2011

House para os crentes...

Sidney Sheldon é dose pra mamute

Gosto da Amy Winehouse. Seus dois discos andaram um bom tempo na minha playlist. No entanto, a exposição promovida pelos portais de fofoca é realmente um saco. Puta que o pariu, não pinta uma mísera análise do trabalho da Amy que, ainda que muitas vezes isso nem seja lembrado, é uma artista, com virtudes e pontos fracos em seu trabalho.

A fofoquinha um pouco mais curiosa que surgiu foi a sua leitura à beira da piscina: Sidney Sheldon. Pelo menos ficamos sabendo que, apesar de ser uma cantora interessante, não é lá muito inteligente e tem um gosto literário pra lá de suspeito. Êta mundinho besta!

quinta-feira, 6 de janeiro de 2011

Entrevista com Mike Davis



Essa entrevista com Mike Davis foi publicada na Com Ciência. Revista de Jornalismo Científico mantida pela SBPC. O link da publicação original está aqui. Reproduzo não só pela importância do tema mas também pela importância do autor, um dos meus preferidos. Se ainda não o conhece, vá atrás!

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Entrevistas
Mike Davis
Em entrevista, o autor do recém-lançado Planeta Favela, diz que a maior parte da população urbana vive hoje em imensos subúrbios sem infra-estrutura e serviços, os quais escapam a qualquer conceituação tradicional
Tradução: Marta Kanashiro
O urbanista, historiador e ativista político Mike Davis tem publicado uma série de trabalhos que se tornaram referências no meio acadêmico, tais como Ecologia do medo, Holocaustos coloniais, e Cidade de quartzo: escavando o futuro em Los Angeles. Não apenas sua obra, mas também sua trajetória de vida é marcada por experiências instigantes. Davis já foi caminhoneiro, açougueiro e militante estudantil. Atualmente é professor no Departamento de História da Universidade da Califórnia, em Irvine, e editor da New Left Review. Ele também contribui para a publicação britânica Socialist Review, do partido socialista dos trabalhadores da Grã-Bretanha, e já atuou como ensaísta e jornalista em publicações como The Nation e New Statesman.

Planeta Favela, lançado no Brasil no final de 2006, é mote para a entrevista abaixo, publicada originalmente no blog BLDG. Na obra Davis aborda o processo de favelização e empobrecimento das cidades do terceiro mundo. Alvo de diversas traduções, em especial de trechos que parecem ser os mais tocantes para a questão das cidades no terceiro mundo, a entrevista recebeu, para ser publicada na ComCiência, uma tradução livre da versão em espanhol publicada pelo Instituto Argentino para o Desenvolvimento Econômico.

Os subúrbios das cidades do terceiro mundo são o novo cenário geopolítico decisivo

Em poucos anos, pela primeira vez na história da humanidade, a população urbana superará em número a população rural. Entretanto, a maior parte dessas pessoas não vive no que normalmente entendemos por cidades, mas em imensos subúrbios sem infra-estrutura e serviços, os quais escapam a qualquer conceituação tradicional. Mike Davis, um dos pensadores mais recomendados dos últimos anos aborda esta nova realidade em Planet of slums (traduzido no Brasil como Planeta favela), que é um desses livros que podemos chamar de imprescindíveis.


Na sua descrição de uma nova “geografia pós urbana”, o senhor utiliza um vocabulário inovador: corredores regionais, conurbações difusas, redes policêntricas, periurbanização ....
Mike Davis - Trata-se de uma linguagem em pleno processo de desenvolvimento e é nela que apenas reside o consenso. Os debates mais interessantes têm surgido a partir do estudo da urbanização no sul da China, Indonésia e no sudeste da Ásia e giram, principalmente, em torno da natureza da periurbanização na periferia das grandes cidades do terceiro mundo. Com este termo refiro-me ao lugar no qual encontram-se o campo e a cidade e a pergunta que se coloca é: estamos diante de uma fase temporária de um processo complexo e dinâmico ou esta natureza híbrida será mantida ao longo do tempo?

A nova realidade periurbana apresenta uma mistura muito complexa de subúrbios pobres, deslocados do centro das cidades e, no meio deles, pequenos enclaves de classe média, freqüentemente de construção recente e com muros. Nessa periurbanização encontramos também trabalhadores rurais atraídos pela manufatura de baixa remuneração e moradores dos centros urbanos que se deslocam diariamente para trabalhar na indústria agrícola. Curiosamente, este fenômeno despertou também o interesse de analistas militares do Pentágono, que consideram essas periferias labirínticas um dos grandes desafios com o qual irá se deparar o futuro com tecnologias bélicas e projetos imperialistas. Após uma época em que se centraram no estudo dos métodos de gestão empresarial moderna – o just-in-time e o modelo Wal Mart – esses militares parecem estar agora obcecados com a arquitetura e o planejamento urbano. Os Estados Unidos desenvolveram uma grande capacidade para destruir os sistemas urbanos clássicos, mas não tiveram nenhum êxito nas "Sader Cities" do mundo. O caso de Faluya é sintomático: depois que a destroçaram com tanques de guerra e bombas cluster, os mesmos insurgentes com os quais se quis acabar a reocuparam quando acabou a ofensiva. Acredito que tanto a esquerda quanto a direita concordam que os subúrbios das cidades do terceiro mundo são o novo cenário geopolítico decisivo.

Qual é a representação cultural mais adequada para os subúrbios do terceiro mundo que o senhor descreve em Planeta favela?
Davis - Se Blade Runner foi um dia o ícone do futuro urbano, o Blade runner dos subúrbios é Black hawk down 1. Reconheço que não posso deixar de vê-lo: sua entrada em cena e sua coreografia são incríveis. O filme representa com perfeição esta nova fronteira da civilização: a "missão do homem branco" nos subúrbios do terceiro mundo e seus exércitos ameaçadores com aspecto de videogame, enfrentando-se com heróicos tecnoguerreiros e com os cavaleiros da Força Delta. É claro que, do ponto de vista moral, é um filme aterrador: é como um videogame no qual é impossível contar todos os somalis que morrem.

Além disso, a realidade é que os brancos não são maioria entre os cavaleiros deslocados para o estrangeiro: são americanos, sim, mas quase todos eles são também procedentes dos subúrbios. O novo imperialismo, como o velho, tem essa vantagem: a metrópole é tão violenta e aloja tanta pobreza concentrada que produz excelentes guerreiros para este tipo de campanha militar. Um professor que tive escreveu um livro magnífico que mostrava, contra todo prognóstico, que nas vitórias nas campanhas militares do Império Britânico o fator decisivo não era a tecnologia armamentista, mas a habilidade dos soldados britânicos no corpo-a-corpo com a baioneta, uma habilidade que era conseqüência direta da brutalidade da vida cotidiana nos bairros baixos ingleses.

Para além do giro em torno da violência e da insurgência, está surgindo algum sistema de auto-governo nos subúrbios?
Mike Davis - A organização nos subúrbios é extraordinariamente diversa. Em uma mesma cidade latino-americana, por exemplo, existem desde igrejas pentecostais, até Sendero Luminoso, passando por organizações reformistas e ONGs neoliberais. A popularidade de uns e outros coletivos varia muito rapidamente e é muito difícil encontrar uma tendência geral. O que está claro é que na última década os pobres – e refiro-me não apenas aos dos bairros urbanos clássicos que já mostravam níveis altos de organização, mas também aos novos pobres das periferias – têm se organizado em grande escala, seja em uma cidade iraquiana como Sader City ou em Buenos Aires. Os movimentos sociais organizados colocaram sobre a mesa reivindicações de participação política e econômica sem precedentes, que impulsionaram um avanço na democracia formal. Sem dúvida, em geral os votos têm pouca relevância: os sistemas fiscais do terceiro mundo são, com raras exceções, tão regressivos e corruptos, e dispõem de tão poucos recursos, que é quase impossível colocar em marcha uma redistribuição real. Ademais, inclusive naquelas cidades em que existe maior grau de participação nas eleições, o poder real é transferido para agências executivas, autoridades industriais e entidades de desenvolvimento de todo tipo, sobre as quais os cidadãos não têm nenhum controle, e que tendem a ser meros veículos locais dos investimentos do Banco Mundial. A via democrática em direção ao controle das cidades – e, sobretudo, dos recursos necessários para realizar as reformas urbanas – segue sendo incrivelmente difícil.

Em quase todos os programas governamentais ou estatais que procuram abordar a pobreza urbana, o subúrbio pobre é compreendido como um simples subproduto da superpopulação. Não tenho nenhuma confiança no conceito de superpopulação. A questão fundamental não é se a população tem aumentado muito, mas como fechar a equação de ter, por um lado, a justiça social e o direito a um nível de vida decente e, por outro lado, a sustentabilidade ambiental. Não há pessoas demais no mundo, o que existe é, obviamente, um consumo excessivo de recursos não renováveis. Claro que a solução deve passar pela própria cidade: as cidades verdadeiramente urbanas são os sistemas mais eficientes, ambientalmente falando, que criamos para a vida em comum. Oferecem altos níveis de vida por meio do espaço e do luxo públicos, ou permitem satisfazer necessidades que o modelo de consumo privado suburbano não pode permitir-se. O problema básico da urbanização mundial atual é que não tem nada a ver com o urbanismo clássico. O autêntico desafio é conseguir que a cidade seja melhor como cidade. Planeta favela dá razão aos sociólogos que assinalaram nos anos 50 e 60 os problemas da suburbanização norte-americana: ocupação caótica do território, incremento dos tempos de deslocamento do domicílio ao trabalho e dos recursos associados a esse deslocamento, deterioração da qualidade do ar e falta de equipamentos urbanos clássicos.

Mas não existem cidades excessivamente povoadas para um entorno escasso em recursos, no qual estão implantadas?
Davis - A inviabilidade de uma megacidade tem menos a ver com o número de pessoas que vivem nela do que com seu modo de consumir: se são reutilizados e reciclados os recursos e se compartilha o espaço público, então é viável. Tem que se levar em conta que a pegada ecológica varia muitíssimo segundo os grupos sociais. Na Califórnia, por exemplo, a ala direita dos movimentos conservacionistas sustenta que há uma enorme onda de imigrantes mexicanos que é responsável pelos congestionamentos e pela poluição, o que é completamente absurdo: não existe população com menor pegada ecológica ou que tenda a utilizar o espaço público de forma mais intensa que os imigrantes da América Latina. O verdadeiro problema são os brancos que passeiam em seus carrinhos de golfe pelos cento e dez campos que existem em Coachella Valley. Em outras palavras, um homem da minha idade, ocioso, pode estar usando dez, vinte ou trinta vezes mais recursos que uma chicana que tenta seguir adiante com sua família num apartamento do centro da cidade.

Não se pode deixar levar pelo pânico do crescimento da população ou da chegada dos imigrantes; o que se deve fazer é pensar como se podem fomentar as atitudes do urbanismo para conseguir, por exemplo, que subúrbios como os de Los Angeles funcionem como uma cidade no sentido clássico. Também se deve respeitar a necessidade absoluta de conservar as zonas verdes e as reservas ambientais sem as quais as cidades não podem funcionar. A tendência atual em todo o mundo é que os pobres busquem acomodação em zonas úmidas (de mananciais) de importância vital, que se instalem em espaços abertos cruciais para o metabolismo da cidade. Aí está o exemplo de Bombaim, onde os mais pobres assentaram-se em um Parque Nacional adjacente e que, de vez em quando, são comidos pelos leopardos, ou de São Paulo, onde se empregam enormes quantidades de substâncias químicas para purificar a água para se livrar de uma batalha perdida contra a poluição na cabeceira de suas fontes de abastecimento. Se se permite esse tipo de crescimento, se são perdidas zonas verdes e os espaços abertos, os aquíferos são bombeados até esgotá-los e se são contaminados os rios, danifica-se fatalmente a ecologia da cidade.


Leia também a resenha do livro Planeta favela, escrita por Ermínia Maricato, autora do posfácio da obra e que afirma que este texto de Davis é importante para iluminar os problemas urbanos e grande parte de suas causas.

1 Black hawk down (Falcão negro em perigo) é um filme dirigido por Ridley Scott em 2001, que retrata uma força de elite americana enviada para capturar militares locais durante a guerra civil da Somália (1993).

domingo, 2 de janeiro de 2011

Baudelaire


Uma pitada de Baudelaire, para animar o domingo.

Portrait de la Canaille littéraire.
Doctor Estaminetus Crapulosus Pedantissimus. Son portrait fait à la manière de Praxitèle.
Sa pipe,
Ses opinions,
Son hégélianisme,
Sa crasse,
Ses idées en art,
Son fiel,
Sa jalousie.
Un joli tableau de la jeunesse moderne.

***

Tous les imbéciles de la Bourgeoisie qui prononcent sans cesse les mots : immoral, immoralité, moralité dans l'art et autres bêtises me font penser à Louise Villedieu, putain à cinq francs, qui m'accompagnant une fois au louvre, où elle n'était jamais allée, se mit à rougir, à se couvrir le visage, et me tirant à chaque instant par la manche, me demandait devant les statues et les tableaux immortels comment on pouvait étaler publiquement de pareilles indécences. Les feuilles de vigne du sieur Nieuwerkerke.

***

A alfinetada que trocadas algumas expressões poderia ter sido escrita ontem à tarde, está em Mon coeur mis à nu: journal intime, (1887)., que pode ser lido gratuitamente em francês aqui. Se preferires em português, há uma bela tradução de Tomaz Tadeu da Silva, pela Autêntica, com o título "Meu coração desnudado".

sábado, 1 de janeiro de 2011

Preconceito e religião

Religião. A discussão é tensa e tem ganhado desdobramentos curiosos. Para alguns, há ingredientes que vão da fé ao apelo moral. Para outros, ainda que ateus e agnósticos, religião é algo que tem apelo pessoal e não deve ser discutido. Fato é que declarar-se ateu ainda é algo que gera muita incompreensão e preconceitos. Abaixo, coloco algumas imagens da campanha lançada pela Atea, associação criada para defender e representar aqueles que não crêem. A tarefa é difícil e necessária. basta olharmos para as conseqüências perversas da religião em áreas que vão muito além da profissão de fé individual, como a ciência e a política.




domingo, 5 de setembro de 2010

Uns copos...


Há algum tempo, recebi um convite gentil de um amigo para degustar algumas cervejas artesanais em um bar de primeira: o Bier Markt. O ambiente é excelente e a carta de cervejas é sensacional. Uma boa cerveja artesanal é algo que não tem nenhum paralelo com as cervejas que fazem parte da cultura cervejeira nacional (via-de-regra a mais barata o mais gelada possível).

São cervejas bem elaboradas, com sabores complexos e muitas delas bem encorpadas (degustávamos cervejas cujo teor alcoólico andava pela casa dos 8%). São um pouco mais caras que aquelas que encontramos em todos os armazéns da redondeza, mas a diferença de preço e de características sugere que se beba com um pouco mais de moderação. O velho papo qualidade vs quantidade.

A única nota negativa, por assim dizer, que eu gostaria de fazer menção refere-se aos comensais. Assim como no “boom” do vinho no Brasil nos anos 90, o crescimento das discussões sobre cervejas artesanais traz consigo uma revoada de chatos. Detesto aquele clima iniciático, onde os cultores da nova seita dividem o mundo entre eles próprios, os iluminados, e o resto.

Quando o vinho e a cultura do seu consumo “cabeça” começou a se tornar uma febre, era comum vermos “connaisseurs” girando a sua taça em círculos, não raro servida de vinhos de qualidade suspeita, e descrevendo-os com metáforas de gosto duvidoso e poesia barata. Agora, com o papo da cultura cervejeira, há um candidato a burgomestre em cada esquina, cheio de si e com uma imensa ladainha prontinha, na ponta da língua.

Há em Porto Alegre diversos bares para se tomar uma boa cerveja e jogar uma conversa fora, tais como o Bier Markt, o Água de Beber e tantos outros. Eu gosto mesmo é de tomar uma cervejinha no conforto do lar. Se gostas da socialização, opções não faltam. Mas cuidado, os chatos estarão sempre à tua espreita...

domingo, 29 de agosto de 2010

Geração Beat


Claudio Willer, além de grande poeta e tradutor é um crítico sensível, em especial de poesia. Em “Geração Beat”, título recém lançado pela L&PM na simpática coleção Encyclopaedia , faz as vezes de historiador da literatura com grande êxito.

O livro, simples sem ser simplório, fornece um ótimo painel da “Geração Beat”, dando maior atenção aos seus autores centrais: Allen Ginsberg, Jack Kerouac e William Burroughs. Willer é, ao lado de Eduardo Bueno e alguns outros, responsável pela tradução e divulgação desses autores entre nós, e ao narrar as linhas mestras desse “movimento” dá a ver toda a sua intimidade com a obra dessa geração de poetas, narradores e contestadores sociais cuja influência na moderna prosa americana é indiscutível.


Devo confessar que após ler o livro de Willer entreguei-me a uma revisão das obras Beats que eu já havia lido e gostaria de passar os olhos novamente, assim como outras tantas que cabem sob essa definição guarda-chuva. Reli algumas coisas do Ginsberg, de todos o autor que eu conhecia melhor, li outras tantas do Kerouac que eu havia deixado passar, além do velho Burroughs. Aproveitei para reler algumas coisas do não-Beat mais Beat de todos: Bukovski. E como a obsessão é o meu lema, dediquei várias horas a autores influenciados pela primeira leva de Beats, como o grande Hunter Thompson. Mas esse merecerá uma postagem dedicada somente a ele.

sexta-feira, 27 de agosto de 2010

Por amor às...


Vivo em meio aos livros. Misturam-se, na minha relação com a página escrita, o prazer de leitor, as tarefas de professor e, eventualmente, o gesto de criá-los. Mas sou obrigado a dizer que poucas coisas são mais prazerosas do que a escolha, a compra e a leitura de um livro há muito desejado.

É curioso ver as diferentes maneiras pelas quais se manifesta o desejo pelos livros. Às vezes se trata de um livro raro, há muito tempo desejado justamente pela sua raridade, que transforma a sua busca em um jogo. Uma obsessão alimentada por várias visitas a sebos, por diversas navegações pelas páginas da Estante Virtual e que só se completa com a obra em minhas mãos.

Outras vezes, ao saber de um livro cuja existência eu desconhecia, sinto-me lesado. Penso sobre como havia vivido tantos anos sem saber da existência daquela obra, que no exato momento em que se abriu frente aos meus olhos revelou um universo extraordinário e ainda desconhecido. Ao ler pela primeira vez Céline ou Isaac Bábel, senti um misto de alegria pela descoberta e tristeza pelos anos que passei sem conhecê-los.

Por tudo isso, ao comprar um livro que não seja um mero objeto de trabalho mas sim um objeto de desejo, por mais que muitas vezes essas coisas estejam imbricadas, gosto de realizar alguns rituais. Ler as orelhas, a quarta capa, folheá-lo despreocupadamente, cheirá-lo.

Ao colocar as mãos no Dicionário Analógico da Língua Portuguesa, tive uma misto de todas aquelas sensações e pude cumprir toda a minha ritualística. Que espera e que obra! Li sobre ele, pela primeira vez, nos anos 90, em uma entrevista concedida pelo Chico Buarque a revista Caros Amigos, o mesmo Chico que faz a apresentação da obra.

Fruto da dedicação do professor Ferreira, como gostava de ser chamado, o dicionário foi publicado pela primeira vez na década de 1950. Não se trata de um dicionário de significados de palavras, mas um dicionário de expressões análogas, pensado para auxiliar na escrita. Ele oferece o que é chamado, na apresentação da nova edição, de uma nuvem de palavras.

A obra é pensada para quem se delicia com a carpintaria da criação literária, com a busca da expressão mais exata para cada situação. Esta obra, que foi legada por Sergio Buarque de Holanda a seu filho, que dela se serviu para compor e escrever seus romances, volta às livrarias e torna-se acessível a todos nós.

A referência:

Francisco Ferreira dos Santos Azevedo. Dicionário analógico da língua portuguesa. 2 ed. atualizada e revista. São Paulo: Lexikon, 2010.