sábado, 26 de maio de 2012

Os lugares escuros de James Ellroy


Jamais a conheci em vida. Ela existe para mim através dos outros, como prova dos caminhos em que a sua morte os lançou. Voltando ao passado, buscando apenas fatos, eu a reconstruí como uma menina triste e uma prostituta, quando muito alguém-que-poderia-ter-sido, rótulo que também poderia se aplicar a mim. Gostaria de lhe ter concedido um final anônimo, de tê-la relegado a breves palavras de detetive, num relatório sumário de homicídio, com cópia carbono para o legista, e mais papelada para enterrá-la em vala comum. O único erro em relação a esse desejo é que ela não teria gostado que fosse assim. Por mais brutais que sejam os fatos, ela gostaria que fossem todos revelados. E como lhe devo muito e sou o único que sabe a história inteira, incumbi-me de escrever essas memórias. James Ellroy, Dália Negra.

Confesso que as histórias policiais ajudaram a me tornar um leitor contumaz. Na escola primária, quando as visitas à biblioteca eram livres, eu sempre me dirigia para a estante de livros infanto juvenis de mistério. Em que série eu estava? Talvez na quinta série do ensino fundamental. Um pouco mais velho, li inúmeros “clássicos” como Agatha Christie e o grande Arthur Conan Doyle. Da Agatha, me livrei. Não posso dizer o mesmo dos livros do Sherlock Holmes.

Ainda que com o passar do tempo meu gosto literário tenha se complexificado, volta e meia eu volto aos livros policiais. Dashiell Hammet, Raymond Chandler, Chester Holmes e alguns outros são boa leitura, ao contrário de toda uma coleção de péssimos escritores, chatíssimos, como esses Dean Koontz e Robert Ludlun, os quais devo dizer que nunca me chamaram a atenção.

Depois de um longo período sem ler nenhum romance policial, começo a ler sobre um certo James Ellroy. Mais do que escritor, pelo que vi, é dono de uma biografia interessantíssima e hábil na criação de mitologias em torno de si. Ellroy chamou muito a atenção de vários dos jornalistas que escrevem nos “suplementos culturais” por sua língua afiada e seus “modos”.


Sergio Rodriguez fez uma comparação interessante entre dois autores contemporâneos, ambos estadunidenses e autores de obras grandes, amplos painéis de uma época. Jonathan Franzen e James Ellroy. A citação é longa, mas foda-se, isso é um blog, não é? Aí vai:


Isso não quer dizer que eles sejam parecidos. Nem de longe, embora ambos se declarem fãs e devedores do grande mestre do romance oitocentista, Leon Tolstoi. Quer dizer apenas que mérito e reconhecimento são curvas independentes, que se encontram e se desencontram de modo imprevisível. Ellroy é mais fragmentado, nervoso, experimental, paranoico, sujo e desbocado que seu compatriota que vem sendo chamado de gênio. Em vez de aspirar a um romance redondo, produz narrativas prismáticas e cheias de arestas que incorporam personagens da vida real, notícias de jornal e relatórios de legistas. Despreza a classe média “normal” que é o pasto de Franzen e se concentra em marginais e poderosos, extremos que se tocam. Parte de um gênero que os críticos de nariz em pé consideram menor, a literatura policial, e, embora seja preciso esquartejá-lo para fazer sua abordagem eminentemente política caber nesse escaninho, paga um imposto alto por ter sangue e armas nas capas de seus livros.
Não é só. Distante da imagem de bom moço de Franzen, Ellroy é um ex-detento e ex-drogado para quem a literatura foi de fato uma boia na tempestade – dado biográfico que, ao mesmo tempo que ajuda em sua divulgação em nossos tempos de culto à personalidade, contribui para folclorizá-lo e diminuí-lo como artista. Além do mais, parece meio maluco e já andou se declarando “o maior escritor policial que jamais viveu”. Antipático, não?


Antipático? Ora, vamos realmente acreditar que um cara como Ellroy está minimamente preocupado em ser simpático?

Acabei de ler “Meus lugares escuros”, uma das obras publicadas mais recentemente em português. Saí convencido de que se trata de alguém que está muito pouco preocupado em agradar. Esta obra é uma espécie de autobiografia, escrita como um rosário de obsessões. Ele começa o livro com uma descrição detalhada do assassinato de sua mãe, Jean Ellroy, quando James tinha dez anos de idade. Em um primeiro momento coloca-se à distância, narrando as circunstâncias em que o corpo da ruiva (ele se refere a mãe dessa forma ao longo de quase toda a obra) foi encontrado, em meio a hera.

Na segunda parte do livro, narra as circunstâncias de sua vida que o levaram à literatura. A solidão de Los Angeles, onde vivia com o pai, as horas que dedicou à leitura de romances policiais e, no início da adolecência, a descoberta das drogas e da marginalidade. Ellroy passou inúmeras vezes pela prisão por pequenos crimes, morou cinco anos nas ruas como mendigo, usou drogas em escala farmacêutica e acabou salvo. Não pela fé, mas pela literatura.

A terceira parte do livro é narrada no compasso dos acontecimentos. Ellroy maduro e reconhecido como escritor decide voltar à cidadezinha onde a Ruiva foi assassinada e reabrir a investigação. E a partir daí o que é narrado é um acerto de contas do autor com o seu passado. Barra pesadíssima.

Isso não é uma resenha, então, encerro por aqui. Se quiserem saber mais, leiam o livro. 

domingo, 20 de maio de 2012

Meditação futebolística de ocasião


Ouvia há pouco o Sala de Domingo, programa esportivo da Rádio Gaúcha. É geralmente muito ruim. Hoje não foi diferente. Ouço em parte por masoquismo, em parte porque domingo é dia de futebol.

Mas hoje, devo confessar, eu tinha um motivo extra para ouvir. Queria acompanhar a choradeira dos comentaristas ao falar da vitória do Chelsea. Não deu outra. Eu tinha certeza que ver um time de azul, retrancado e levando o caneco contra um time de vermelho evocaria as piores lembranças nos nossos comentaristas.

Mas que maravilha! Definições clássicas do discurso sobre a contradição performativa “futebol arte” foram evocados. Nando Gross falou do anti-jogo do Chelsea. Do defensivismo. Do crime que foi cometido contra o verdadeiro futebol. Da beleza do futebol do Barcelona. Alguém da mesa jogou o tema que todos mastigavam mas não tinham coragem de enunciar: o Grêmio da década de 1990. O grande Grêmio do futebol ortodoxo, uma verdadeira máquina de jogar bola, administrada pelo grande Felipão, o homem que deu ao Brasil seu mais recente título Mundial, o Brasil de Anderson Polga e do grande Emerson, o volante de contenção.

O Nando Gross, quase arrancando as calcinhas por cima da cabeça, chega ao absurdo de evocar o lamentável Armando Nogueira, o mais lembrado defensor do futebol bailarino de todos os tempos, autoproclamado inimigo número 1 da grande escola futebolística gaúcha de equipes memoráveis, como o Grêmio das décadas de 80 e 90, do Brasil de Pelotas da década de 80 e, até mesmo, do Renner e do Força e Luz dos anos 50. 

O nosso prezado comentarista chegou ao aparente absurdo de afirmar que Armando Nogueira não era futebolisticamente carioca, mas sim brasileiro. Ora, com essa eu concordo. O Grêmio era e voltará a ser do Prata. 

E nesse crise maníaca de defesa do indefensável, esse futebol bailarino, um jogo que mais parece uma dança, um mero ritual malemolente e absolutamente inconsequente, eles, é claro, vieram falar da derrota de Sarriá. E junto com essa lembrança, só comparável em grandeza com a Copa de 1950, vem todo o papo furado sobre a seleção de 1982. Seleção que ganhou o que mesmo? NADA.

Alguns dos componentes da mesa, pra fechar, lembraram a manifestação do abominável Armando Nogueira quando o Grêmio de 1997, jogando um futebol ortodoxo, vergou o Flamengo dentro do Maracanã, o Flamengo namoradinha do Brasil, de Sávio e Romário e desse mesmo Luxa que agora está (lamentavelmente) na casamata do Grêmio.

Os exemplos não paravam de ser oferecidos: o Porto, campeão mundial; o Once Caldas, que entornou a calda dos namoradinhos do Brasil São Paulo e Santos; a Grécia da Euro... Confesso, fazia tempo que não me divertia tanto, ainda por cima reforçando minha tese sobre a essência do futebol...


segunda-feira, 14 de maio de 2012

A alegria é a prova dos nove


Tenho uma pequena lista de coisas à espera de um comentário aqui no Blog. Dentre elas, uma saltou na frente, furou a fila e ganhou (como louvor) a vez: o show “Caixa de Ódio”, de Arrigo Barnabé.

Arrigo, Paulo Braga e Sergio Espíndola já haviam passado pelo StudioClio há alguns meses, apresentando esse particularíssima interpretação de alguns clássicos de Lupicínio Rodrigues. Para minha alegria, trouxa que sou não havia conseguido vê-los na sua primeira passagem pela cidade do Grêmio e do Lupi, voltaram com a corda toda. E que belo show! Arrigo Barnabé e seus brilhantes companheiros de palco deram uma roupagem saborosíssima aos petardos, carregados de ressentimento, do grande Lupicínio.


Um detalhe interessante sobre as interpretações das canções de Lupicínio. Em uma apresentação de “Caixa de Ódio”, veiculada pela TV Cultura, Arrigo afirmou que não era um cantor, mas uma espécie de ator. Arrigo, que se iniciou musicalmente na música erudita, nunca abandonou o laboratório da composição, que é onde ele parece se sentir totalmente à vontade. Nos anos 70, abraçou a cultura pop da época, misturando literatura pulp, quadrinhos e rock n' roll, os encharcou de dodecafonismo, Bartok, Stockhausen e outras mumunhas e criou Clara Crocodilo. Nos anos 80, seguiu fazendo experiências musicais com a chamada vanguarda paulista. Ou seja, sempre cantou, mas isso deve ser visto por ele como um meio de dialogar a sua peculiaríssima mistura do pop com o erudito.

Dito isso, é preciso considerar que ele cantou e muito. A sua interpretação é carregada de ironia e veneno. Mas definitivamente não vai na mesma linha dos grandes intérpretes de Lupicínio, sobre todos pairando a figura de Jamelão. O lance é outro. Ou não.

O que os três apresentaram no StudioClio foi música e além disso, uma interpretação das composições de Lupicínio que valorizam as suas crônicas dos amores desfeitos, da traição, da inveja e da dor. E o polumético Arrigo, de modo muito inteligente, faz com que isso não soe brega. A sua verve irônica recupera todo o cinismo presente nas letras do Lupicínio, sem se levar a sério em demasia. É, pari passu a todas as virtudes musicais, um show muito divertido.   

segunda-feira, 7 de maio de 2012

Juvenília raulseixista revisited




Raul Seixas é um fenômeno curioso. Nas conversas “sérias” sobre a MPB não é comum ouvir algo sobre ele. Via de regra, as análises recaem sobre a obra de Caetano Veloso, de Chico Buarque e de alguns outros poucos compositores. Por outro lado, o apelo popular de Raul Seixas é impressionante. Virou grito de guerra em qualquer lugar onde haja música ao vivo (toca Raul!) e tem o seu público em constante processo de renovação. É muito expressivo o número de fãs que eram crianças ou mesmo nem haviam nascido quando ele morreu, em agosto de 1989.

Devo dizer que eu não ouvia Raul com muita frequencia quando ele morreu. Em 1989 eu tinha 11 anos de idade e ainda não era um grande consumidor de música. Deveria ter uma ou duas fitas em casa com músicas dele. Mais tarde, ali por 1992, comecei a ouvir sistematicamente, a colecionar seus discos (em LP e, logo depois, em CD).

Mais importante do que isso, comecei a rastrear algumas das referências que estavam espalhadas por suas composições. A partir de suas músicas, me interessei por cinema antigo, literatura e rock and roll, de todas as gerações. De “O dia em que a Terra parou” a Bob Dylan, do Bhagavad Gita a Luiz Gonzaga, passando por Elvis, Beatles, pelos beats e pelos hippies. Raul foi uma excelente porta de entrada para a cultura pop e de algum modo, um apoio importante para alguém que se sentia tão sozinho quando eu. Em função de Raulzito, li muito, ouvi muita música, fiz amigos por correspondência, criei um Fanzine (eram 12 páginas, escritas por mim, xerocado e enviado pelo Correio) e cheguei ao ponto de escrever para a sua mãe (o mais interessante, ela respondeu a minha carta).

Assistir ao documentário “Raul: o início, o fim e o meio” me fez, por duas horas, passar um pouco da minha adolescência a limpo. Achei o documentário muito bem montado. Não é apelativo, não explorou excessivamente o aspecto por assim dizer trágico de sua personalidade. Alcoólatra e cocainômano, Raul daria margem para um grande programa de desgraças ao sabor da mídia televisiva. Esses temas não foram tangenciados, mas também não ocupam um espaço excessivo na história que o diretor estava disposto a narrar.

Acima de tudo, o que se vê ali é um artista, extremamente criativo, muitas e muitas vezes mal compreendido. Suficientemente inteligente para querer mudar o mundo e suficientemente anárquico para saber que isso não era possível. Francamente, pensando em tudo isso, tenho certa pena de quem nunca foi patético. Absolutamente patético.

quarta-feira, 2 de maio de 2012

Disseram que eu voltei americanizada...

O cineasta Fernando Meirelles, ao receber uma homenagem Cine PE - Festival do Audiovisual, resolveu, por assim dizer, chorar as mágoas. Segundo ele não vale a pena produzir cinema no Brasil, uma vez que a resposta de público é muito pequena. Tudo por conta da audiência de Xingú, filme dirigido por Cao Hamburger e por ele produzido.

Dos extratos reproduzidos de sua fala, o que chamou a minha atenção foi a sua leitura do público de cinema no país. Disse ele: “Nós temos uma classe C nova que não ia ao cinema antes e esse pessoal é formado no audiovisual pela TV. Então hoje a gente vive uma realidade de filmes que poderiam estar na TV e estão nas telas”.

Acho que há um misto de ingenuidade e de preconceito em sua fala. E veja bem, desavisado leitor, não acho que falar mal das opções estéticas das classes c, d, e... seja um pecado, punível com chicote. O erro está em acreditar que o, digamos, mau gosto, é um privilégio das classes menos favorecidas e/ou “emergentes”. Convenhamos, o Brasil é absurdamente democrático nesse aspecto. Há mau gosto em todas as classes.

A constatação de que há todo um segmento de público que é formado pela estética da telenovela é velha como a Sé de Braga. Pergunto: no Brasil, qual o percentual das pessoas não é formado pelo audiovisual? Será mesmo que o público que lotou as salas do país para assistir “Cidade de Deus” era somente formado por cinéfilos? Frequentadores de cineclube? Fãs de Godard? Ora, é óbvio que não.

Cá entre nós, "Cidade de Deus" é um filme banal. Um clipe da MTV com duas horas de duração que caiu no gosto popular rapidamente, chegando a ser convertido em uma série pela Globo, sob o nome de “Cidade dos Homens”. É um filme, digamos, competente. Comparado com certas coisas produzidas pelo Jorge Furtado ou pelo Carlos Gerbase, ele pode até mesmo ser elevado aos mais altos patamares do cinema nacional. Partindo de critérios absolutos, no entanto, sempre me parece coisa de publicitário descoladinho.

Confesso que desse papo todo que rolou na rede sobre a fala do Meirelles, a única informação que me tranquilizou foi o engavetamento do projeto de levar à telas "Grande Sertão: Veredas", de Guimarães Rosa.

sexta-feira, 17 de fevereiro de 2012

Merquior


Ainda no primeiro semestre de 2012 José Guilherme Merquior estará de volta às livrarias do país. Já comentei isso de passagem no Facebook e volto ao assunto, mais uma vez sem o vagar merecido.
Indiscutivelmente, seu nome vem carregado de alguns preconceitos por parte daqueles que, mais velhos, acompanharam a sua trajetória. Os mais jovens, em sua maioria, não o conhecem. Nunca leram nada que ele tenha escrito, ele nunca será indicado por parte significativa de seus professores, restando-lhe o esquecimento.
Se eu ouvisse uma descrição objetiva e fria de Merquior, o mais provável seria não simpatizar com ele. Há alguns predicados irritantes. Protegido do lamentável Roberto Campos, apoiador, ao menos em um primeiro momento de Fernando Collor de Mello, além de ser um entusiasta do neoliberalismo. Pensando bem, no entanto, em que isso interfere em suas virtuosísticas análises de poesia, por exemplo? Digo isso porque ouvi, em mais de um lugar e de vários “intelectuais” algo como - vais ler esse cara, ele era um “direitoso” e blá, blá, blá, sem um argumento concreto, no melhor estilo não li e não gostei.
Para que possamos pesar bem as coisas, devemos também levar em conta as suas virtudes, algumas delas constantes desde a sua aparição para a inteligência brasileira, quando publicava crítica de poesia no Jornal do Brasil aos 18 anos. Acho, tendo lido vários de seus livros, que elas são maiores, mais profundas e mais decisivas do que esses defeitos que elenquei no parágrafo acima.
Crítico arguto de literatura, dono de um repertório sofisticadíssimo que ia da filosofia às artes visuais, da ciência política à crítica literária, com inúmeras paradas entre cada um desses portos, Merquior não fazia média, muito menos concessões quando se tratava de debater idéias. Era um polemista de peso, desses que não se vê mais circulando pelos suplemementos culturais dos jornais e pelas revistas de grande circulação, seu habitat natural. Escreveu nos maiores jornais e revistas do país, com regularidade e sempre “batendo forte”.
Vou salvá-los de meus elogios ao Merquior e deixá-los uma dose de sua acidez. Duas críticas, separadas por quase 10 anos, servem de amostra. Espero que a volta de suas obras aos leitores faça com que ele seja mais lido, até porque sigo ouvindo estudantes de letras afirmando que nunca leram uma linha do que ele escreveu. São dois artigos:
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O estruturalismo dos pobres*

José Guilherme Merquior

* Publicado originalmente no Jornal do Brasil, em 27 de janeiro de 1974.

Se você quer estudar letras, prepare-se: que idéia faz você, já não digo da metalinguagem, mas, pelo menos, da gramática generativa do código poético? Qual a sua opinião sobre o rendimento, na tarefa de equacionar a literariedade do poemático, de microscopias montadas na fórmula poesia da gramática/gramática da poesia? Quantos actantes você é capaz de discernir na textualidade dos romances que provavelmente (tres-)leu? E que me diz do “plural do texto” de Barthes – é possível assimilá-lo ao genotexto da famigerada Kristeva? Sente-se você em condições de detectar o trabalho do significante no nouveau roman, por exemplo, por meio de uma “decodificação” “semannalítica” de bases glossemáticas? Ou prefere perseguir a “significância”, mercê de alguns cortes epistemológicos, no terreno da forclusão, tão limpidamente exposta no arquipedante seminário de Lacan?
Mas não, nem tudo é assim tão difícil: não me diga que acha duro compreender Abraham... Moles! Aliás, esse esoterismo não se restringe ao campo literário; estende-se à filosofia, ameaça a área inteira das ciências humanas. Hoje em dia, até os primeiranistas de jornalismo aprendem a questionar o Ser através de “colocações” heideggerianas, com grande luxo de trocadilhos etimológicos tão solenes quanto ridículos (os heideggerianos não tomaram conhecimento da arrasadora crítica de Nietzsche à falsa “profundidade” em filosofia).
E se você acha o estruturalismo uma parada, é pura ingenuidade sua: talvez você não saiba que o velho estruturalismo está superado, tão superado quanto a estilística; o estruturalismo vieille école faleceu em 1968, assassinado por Chomsky e pelo movimento de maio. Você não viu A Estrutura Ausente, do Umberto Eco? ... Já está circulando, traduzida para uma língua vagamente aparentada com o português. Compre logo, e leia se puder: porque quem não se informa não comunica, e quem não comunica se estrumbica, conforme adverte o sábio Chacrinha (cada povo tendo o Mc Luhan que merece).
Graças ao “estruturalismo” no seio das humanidades estrepitosamente tornadas “científicas”, vinga e prospera o mais franco terrorismo terminológico. A seu lado, todavia, pontifica um não menor “terrorismo metodológico” (Starobinski). Pois o estruturalismo é o paraíso do Método; a nova crítica, por exemplo, se alimenta do mito do Modelo mecanicamente aplicável. Pós-graduandos incrivelmente ignaros, outrora incapazes, por simples analfabetismo, de empreender a interpretação de obras pejadas de referências culturais, agora se entregam sem nenhuma inibição à volúpia de aplicar a torto e a direito modelos “científicos” de análise. O Método está ao alcance de todos (em módicas prestações); e “o crítico é o seu método”, sentencia com fervor um dos mais recentes oficiantes do culto estruturalista. A interpretação literária se converte numa espécie de gincana: o negócio é acumular as “leituras” segundo São Propp, São Greimas, São Todorov, São Genette et caterva, a menos que se venere o guru supremo da sofisticação lingüística, o staretz do M. I. T., Roman Jakobson, para quem poesia é pura combinatória verbal, e o único aspecto referencial extralingüístico digno de atenção na literatura se limita a sua relação com as demais artes (cf. JAKOBSON, Roman. “Questions de Poétique”. Paris, Seuil, 1973, p. 145-151).
Não existe um estruturalismo: existem no mínimo vários, tão diferentes na inspiração quanto no grau de consistência dos seus resultados. A ninguém ocorreria comparar a sério pesquisas do porte da história das religiões comparativas de Dumézil, em quem a revolução antropológica levi-straussiana reconhece um estruturalista avant la lettre, com as gratuitas elucubraçõezinhas de Genette ou Todorov; e seria altamente injusto equiparar a problemática de um Foucault aos graciosos arabescos especulativos, totalmente despojados de gume sociológico, de Althusser e sua súcia. Mas é em vão. O estruturalismo mítico subjuga todas as denúncias, repele todas as discriminações e usurpa o magistério humanístico. Como esperar da Ciência redentora que atenda às recriminações dos “passadistas”? ... No máximo, o Saber estrutural se limita a devorar seus ídolos. Lévi-Strauss já era; viva Lacan!... Quanto a Jacques Derrida, derrubou com galhardia o próprio totem do novo credo: Saussure em pessoa.
O mito da Ciência se expande, mas o senso de objetividade declina. Voltemos ao caso da crítica literária. Naturalmente, a crítica estruturalista sempre exorta gravemente a “ir ao texto”. Na realidade, porém, a penúria de exames objetivos, a indigência de análises genuinamente imanentes, tem sido a regra. Segundo a censura insuspeita de Lévi-Strauss, a crítica dita estrutural sofre de crônico ventriloqüismo: em vez de avançar, laboriosamente, na inteligência do texto, projeta quase sempre nele as fantasias teórico-metodológicas do crítico parisiense (ou de seus entediantes discípulos). Como o fetichismo do método “científico”, a mística da “textualidade” mal encobre a grossa arbitrariedade das interpretações. Apesar de sacralizado, o texto vira mero pretexto... “Tia” Estilística, essa excelente senhora tão caluniada, era bem mais sensível, bem mais escrupulosa, em face do discurso poético.
É certo que a estilística era praticada por gente da sensibilidade e da cultura de um Spitzer, um Auerbach ou um Augusto Meyer, e não por universitariozinhos tecnocráticos de consternadora estreiteza mental, como T. Todorov ou esses sinistros jakobsonianos tupiniquins. De acordo com a doutrina estruturalista, a superioridade de um Jakobson, em relação a Spitzer e Auerbach, reside no método. Essa supervalorização do método espelha uma crendice típica – a de achar que Jakobson, por ser um dos pilotos da revolução científica na lingüística, é também automaticamente “científico” quando pia no terreno da crítica, onde, aliás, não é raro vê-lo “sacar” tranqüilamente a propósito de assuntos em que não goza de nenhuma autoridade especial, como, por exemplo, história da arte. Mas essa repugnância em reconhecer a diversidade de jurisdição dos setores – lingüístico e literário (diversidade que não exclui, bem entendido, a existência de importantes relações entre ambos) – não tem absolutamente nada de científica. A história se repete: no estruturalismo, como ontem no positivismo, o mito da Ciência violenta os próprios hábitos, e o próprio rigor, da verdade ciência.
O pedantismo e a esterilidade estruturalistas assolam Paris. Tanto assim, que já se observa o esboço de uma sadia reação. Serge Moscovici, por exemplo – autor do notável “La societé contre Nature” –, acaba de passar uma espinafração em regra nos “epistemocratas”, esses viciados num coquetel bem parisiense: a “batida” de gauchisme irresponsável com bizantinismo intelectual. E até o Anti-Édipo de Deleuze e Guattari, flor da sacação pós-estruturalista, já vem sendo considerado uma regressão, descabeladamente metafísica, a posições pré-(e não pós-, como pretendem seus autores) freudianas.
Entre nós, porém, a praga atua de modo mais daninho. O pedantismo da “matriz” (cinqüenta anos depois da explosão ao mesmo tempo nacionalizante e universalista do modernismo, voltamos a macaquear abjetamente os piores aspectos da cultura francesa), o abuso agressivo de terminologia superfluamente hermética em lugar do real trabalho de análise, quase nunca depara, neste Brasil de jovens e precaríssimas universidades, com a resistência da pesquisa séria e do ensino crítico. Ao contrário: como as universidades “brotam” agora (numa expressão demasiado rápida para ser levada a sério), e os ignorantes se diplomam e se doutoram às centenas, a arrogância intelectual mais oca e mais inepta se dá facilmente ares dogmáticos de ciência exclusiva. No entanto, os sacerdotes do Método não sabem sequer português. Nossa ensaística atual é o paraíso do solecismo, o éden do barbarismo. Se você encontrar um título sobre “escritura”, não creia que se trata de uma obra para tabeliães: trata-se mesmo é de “écriture”, que os nossos preclaros estruturalistas não sabem traduzir por “escrita”... ¹
A estruturalice nacional se proclama revolucionária. Como certos vanguardismos paranóicos, que, por mais que se digam ferozmente antiacadêmicos, jamais conseguiram disfarçar sua natureza de subversõezinhas tão vazias quanto ritualísticas, sempre consentidas, quando não programadas, pelo establishment cultural, o estruturalismo corteja a fraseologia da ruptura. Contudo, por trás dessa belicosidade ideológica, podemos vislumbrar uma conivência bem conformista com a situação crítica da intelligentsia latino-americana e, em particular, com a crise da educação superior. Não é por acaso que o ator ou espectador por excelência do festival estruturalista é o aluno ou ex-aluno da universidade massificada; da universidade que, desejando-se socialmente antielitista, por fidelidade ao imperativo da democratização do ensino, vem destruindo, consciente ou inconscientemente, o outro elitismo da universidade tradicional – o seu legítimo aristocratismo intelectual.
O fetichismo dos métodos simplistas, a superstição mais do que ingênua da “cientificidade” incomprovada (patente no fascínio pelos modelos lingüísticos como panacéia hermenêutica), o prestígio do palavreado abstruso, o servilismo bobo diante das fontes estrangeiras erigidas em oráculo mítico, numa palavra, todos os semblantes do “terror” estruturalista possuem o mesmo pressuposto – a rarefação do espírito crítico cansada e estimulada pelo abaixamento intelectual da universidade, no preciso instante em que esta se lança a abranger ou incorporar a quase totalidade do trabalho literário e erudito. Não é à toa que a universidade brasileira menos atraída pelo delírio estruturalóide – a USP – é a mais sedimentada, a mais amadurecida das nossas instituições do gênero.
Para o lukacsiano Carlos Nelson Coutinho, a voga estruturalista (em que ele não distingue o joio do trigo) é pura ideologia burguesa – a ideologia dos anos prósperos e doces da sociedade de consumo, “filosofia” sucessora da onda existencialista, que teria sido um reflexo das angústias do pós-guerra. Será?... Essa interpretação que ignora candidamente os avatares da alienação ideológica nas sociedades não-capitalistas, joga com correlações macro-sociológicas muito pouco mediatizadas. Qualquer que seja a dialética entre a estruturalice e a evolução social global, tudo indica que ela passa pela dinâmica interna da intelligentsia e de seus âmbitos institucionais, o primeiro dentre estes sendo, nestes tempos de “revolução educacional” (T. Parsons) a universidade. E é essa dinâmica interna – posta em conexão com os notórios defeitos e deficiências dos processos de vida intelectual no Brasil – que parece explicar os aspectos teratológicos do clima estruturalista no arraial literário, filosófico e (lato sensu) sociológico. Uma coisa é certa: dos estruturalismos europeus, a variante verde e amarela tende decididamente a desconhecer o que têm de positivo, e a agravar o que trazem de mau. Entretanto, se, ao exacerbar as taras do seu paradigma parisiense, o estruturalismo dos pobres é caricatura, ao denunciar fidedignamente as distorções do nosso ambiente universitário, ele se faz retrato. Por isso, se o “estruturalismo” é, em si, uma inutilidade, muito útil se torna estudar as condições de florescimento do estruturalismo dos pobres – o que é a melhor maneira de desmistificá-lo.

Nota:
1 – Bem sei que escritura, em português, é também sinônimo de escrita; aparece precisamente nesse sentido até num antigalicista feroz como Filinto Elísio (Carta ao amigo Brito, versos 9 e 34). Tratando-se, porém, de uma acepção em desuso, não seria ingênuo supor – quando ela ocorre em textos inçados de “decodificações”, “literariedades” e outros francesismos gratuitos – que a palavra resulta de uma escolha estilística, e não da ignorância do vernáculo por tradutores de meia tigela?

A lepra lingüística*

José Guilherme Merquior

*Publicado originalmente no Jornal do Brasil, em 4 de janeiro de 1983.

Outro dia um locutor da rádio “cultural” de Brasília apresentou uma peça de música barroca dizendo que seu título era “A Rainha de Sheba” – pronunciando, naturalmente, “xeba”. Poucos meses antes, o público da televisão assistiu a um filme dublado em que Rex Harrison, fazendo o papel do papa “Julius” II, voltava de uma viagem à “Rumânia”... e enquanto isso, uma outra película dublada, se não me engano uma história de James Bond, classificava de “feudos” sangrentos os conflitos entre duas organizações mafiosas. Alguém precisa realmente cuidar um pouco mais da nossa pobre língua – nosso principal instrumento de pensar e de viver – e impedir que semelhantes absurdos tenham o livre curso que vêm tendo, aos montes, em nossos meios de comunicação de massa.
É claro que a tarefa não é fácil. Afinal, vivemos num país onde mesmo as pessoas sofisticadas acham feio dizer “Genebra” e insistem em usar “Genève”, embora massacrando, sem querer, bem entendido (é a punição dos esnobes), a pronúncia francesa. E acham muita graça na generalização de mulambos sintáticos como “Você receberá tudo que tem direito” ou “O esforço a que o candidato se propõe” ou em contra-sensos semânticos do tipo “o comitê organizador da feira preparou o evento”. Ninguém se incomoda muito com o estado da língua, e menos que todos os milhares e milhares de bárbaros e solecistas que ganham, cada ano, diplomas em profusão. A gente chega até a sentir certo complexo de culpa, e a tentação de indagar se não está sendo muito “elitista” com esse tipo de exigência...
Na minha infância, porém, como na minha adolescência, qualquer ex-colegial, como suponho o seja o nosso locutor radiofônico, sabia que “Queen of Sheba” é “Rainha de Sabá” – ao passo que ele, coitado, só sabe (e já é muito) que “queen” é “rainha”. O papa era conhecido como Júlio, não como “Julius”, e nunca foi à Rumânia, ou, melhor dito, Romênia e sim à Romanha (Romagna), região do centro-leste da Itália. Em suma, cada pessoa medianamente educada que lidava com o inglês ou o francês conhecia razoavelmente duas coisas: o português, e a chamada cultura geral, aquela tal que “fica quando se esquece tudo mais” e serve ao menos para que seu detentor não passe vergonha. Quase nulo era o risco, há apenas vinte anos, de que um tradutor vertesse “laissez-faire” por “deixe estar” – sim, leitor, não esfregue os olhos: “deixe estar”, tal como se pode ler no volume “Raymond Aron na UnB” – uma universidade que publica anualmente uma verdadeira pletora de traduções, mas se obstina em considerar de somenos garantir um nível mínimo de correção lingüística a seus textos.
Nem se veja nessa crítica um puro lamento “social” – algo assim como o constante sobressalto de nossas elites mais antigas ante as sucessivas ondas de “parvenus” sem maneiras, da “turma que toma sopa de garfo”, como se diz, graficamente, no Sul. A maior vítima da nossa tragédia em matéria de cultura lingüística não é a elegância do falar – é, pura e simplesmente, a eficiência da comunicação. Pouquíssimos os que ainda sabem fazer um relato (quanto mais um relatório) decente, objetivo e articulado; pois a ruína da sintaxe acompanha a penúria do léxico. Nas empresas, nos governos, voltamos – em plena era da alfabetização maciça – ao princípio da Renascença, quando os serviços dos raríssimos letrados profanos (os humanistas) eram disputados como talentos ultravasqueiros... Quem ignora que, no Rio de Janeiro, prosperam “fábricas” de teses de pós-graduação, encomendadas a peso de ouro por mestrandos e doutorandos semi-analfabetos? E já há casos de chefes de departamentos de letras ainda rigorosamente virgens de qualquer comércio mais íntimo com a gramática da regência e da concordância. Um deles, emérito lacaneta.
A mais insigne monstruosidade perpetrada contra a educação brasileira – o vestibular unificado, sem redação – está na raiz da nossa lepra lingüística. Mas é preciso frisar que o mal reside na cultura (e no sistema educacional) e não no próprio idioma. Como sistema lingüístico, o português continua a demonstrar notável aptidão para o enriquecimento e a renovação, conforme vem registrando o Aurélio e vêm notando destacados estudiosos nacionais e estrangeiros, a começar (do lado de cá) por um Celso Cunha ou um Antonio Houaiss. A língua é rica e plástica; a fala (no sentido de Saussure, e portanto, tanto oral quanto escrita) é que anda pobre e trôpega. De resto o fenômeno sofre a inevitável refração imposta pela amplitude e variedade do Brasil, capaz de fazer com que a gente pobre de São Luís se expresse, em média, infinitamente melhor do que a juventude burguesa de Copacabana ou Belo Horizonte. Compete a todos nós concitar os poderes públicos e as autoridades do ensino a pôr cobro a essa situação alarmante, em que a práxis cada vez mais barbarizada do português ameaça relegar a opulência e cultura da nossa linguagem ao estado de uma “reserva” aristocrática – espécie de latim do espírito, sem nenhuma correspondência prática no cotidiano da vida social.

sexta-feira, 10 de fevereiro de 2012

Hitch 22



Confesso que antes de começar a leitura de Hitch 22, livro de memórias de Christopher Hitchens, minhas expectativas não eram muito altas. Já havia lido outros livros de Hitch, “Deus não é grande”, as suas “Cartas a um jovem contestador” e “O cristianismo é bom para o mundo?”. Além disso, havia passado os olhos por alguns ensaios de “Amor, pobreza e guerra”, em especial os ensaios literários. Devo dizer que a sua introdução ao Augie March de Saul Bellow é digna de nota. Inteligente sem ser afetado, direto sem ser simplório. Não deixei de apreciar Hitchens personagem de Hitchens, uma de suas melhores facetas, que pode ser apreciado em suas inúmeras participações televisivas.

Minha desconfiança, como se pode perceber facilmente pelo que afirmei no parágrafo anterior, não vem do desconhecimento do autor, velho conhecido de quem eu gostava bastante. Nem mesmo pelo tipo de narrativa que eu poderia encontrar, uma vez que aprecio muito as narrativas em primeira pessoa e mesmo memórias, ainda que muitos autores não sejam suficientemente cruéis consigo mesmo como o foram com terceiros.

Sem grandes convicções, fui à livraria de sempre buscar um exemplar. Comecei como sempre gosto de fazer, com um teste drive no Café da Livraria Cultura. Confesso que fiquei fortemente impressionado com o texto e não consegui largá-lo antes de vencer as suas 578 páginas, lidas em duas ou três investidas.
Tenho grande apreço por esse tipo de personagem. Hitchens equilibra, em suas memórias, a experiência histórica da Inglaterra do pós-45 com as suas escolhas, vai se expondo sem demonstrar receios. É um franco atirador, direto, não se esconde atrás de eufemismos. Expõe um pouco de sua experiência familiar em dois capítulos sensíveis, o primeiro, dedicado a sua mãe e o segundo, ao seu pai. Se não chega a expor as feridas abertas, não deixa de mostrar algumas das cicatrizes. Seu irmão, Peter, não ocupa mais do que algumas páginas de sua narrativa.

Um dos pontos altos do livro é a análise que faz da experiência de classe que rondava a cabeça de famílias inglesas de classe média, dramatizada pela entrada em uma escola privada e interna e do que isso significava. Ela remete a um tema muito lembrado por escritores ingleses e mesmo os estadunidenses, os ritos de passagem e de relações de amizade e mesmo sexuais vividas então. É todo um jogo de distinção social que se descortina, com as suas disputas, hierarquias e descobertas, em grande medida decidindo a sorte dos personagens ali envolvidos. Essa vida escolar é evocada em diversos pontos e acaba servindo de material na formação do futuro escritor e do espírito contestador de Hitchens.

Se esse é o ponto alto do livro, acho que o ponto mais polêmico, que ocupa parte significativa de suas páginas, é a adesão de Hitchens ao grupo de intelectuais que apoiaram a invasão do Iraque. Há justificativas bem apresentadas, com as quais não precisamos necessariamente concordar e sobre as quais não pretendo discorrer com muito vagar: o autor procura, nesse balanço de sua vida, por constantes que dão coerência às suas escolhas, que vão desde a sua militância trotskista nos anos 1960 e 1970 até o início dos anos 2000, quando ele se torna franco defensor do ataque ao Iraque e da captura de Sadam Hussein.

Hitchens demonstra que seu conhecimento sobre a realidade iraquiana e dos países do oriente médio vinha dos seus tempos de correspondente de jornais ingleses e passava pelos anos de militância, seja no jornalismo, seja na política.

Seu desprezo por regimes ditatoriais e teocráticos, era antigo e suas raízes podem ser ligadas à solidariedade com a minoria curda, cuja realidade ele conhecia bem ou às perseguições sofridas por intelectuais secularistas como o escritor e seu amigo Salman Rushdie, na década de 1980 ou Ayaan Hirsi Ali, nos anos 2000. O seu antídoto para isso? O internacionalismo, o cosmopolitismo, a solidariedade internacional e o secularismo radical, conceitos que são usados ao longo do texto para, de algum modo, explicar como fez as suas escolhas.

Aqueles que partem para a leitura de Hitch 22 atrás de um bufão e de litros e litros de whisky, perdem a viagem. Mas ganham a leitura de um belo livro.

domingo, 24 de julho de 2011

Pola Oloixarac


Assisti outro dia uma entrevista da nova queridinha da literatura latino-americana, Pola Oloixarac. Afetada, marqueteira e pelo que vi, burra de dar dó, a moça capricha no visual e vem com um papinho que podemos encontrar facilmente em qualquer barzinho bicho grilo. A entrevista foi constrangedora tanto pela pose da escritora quanto pela atitude do entrevistador que escorria em superlativos ao falar de seu livro.

Entre um bloco de perguntas e respostas e outro, era lidos alguns trechos de "As teorias selvagens". A primeira coisa que me ocorreu foi: se esses são os pontos altos, imagina o que o resto me reserva.
Sem querer julgar rápido demais, fui à Livraria Cultura, peguei o livro e pedi um expresso duplo. Antes de o café me deixar com queimação no estômago, a prosa emPolada (sorry...) de "As teorias selvagens" fez o serviço.

Lugares comuns, caricaturas baratas dos "intelectuais" que aparecem em sua trama, tudo isso com cheiros de filosofia pop tornam o todo bastante enfadonho. A "espiada" que dei na sua obra já fez com que eu me sentisse totalmente liberado do "compromisso" de lê-la com maior atenção, até porque a lista de obras para serem lidas antes da mais nova candidata a queridinha dos suplementos de cultura dos jornais de grande circulação é extensa. Fiquei satisfeito ao ver que ao menos um crítico aponta, em seu comentário, para a mesma direção. Colo abaixo um pedaço do texto de Luciano Trigo sobre a Flip e, mais especificamente, sobre a "hermana".

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"Se no ano passado a cubanita Wendy Guerra foi apontada como sex symbol, em 2011 a musa anunciada foi a argentina Pola Oloixarac. No quesito sedução, cheia de olhares e bocas e pernas cruzadas e risinhos e da falsa timidez de quem se acha muito gostosa com seu batom vermelho e suas mechas, bem, dá para dizer que ela cumpriu seu papel. Mas ao abrir a boca, na mesa que dividiu com o angolano – este sim escritor, este sim cativante – Walter Hugo Mãe, Pola deixou a desejar. Incapaz de articular um pensamento completo, mas pretensiosa a ponto de citar Kant, com o olhar sempre em busca da câmera, ela parecia mais preocupada em ser vista nos telões por um bom ângulo do que em dizer coisas inteligentes. Pelo ângulo literário ela não se destacou. Se essa tendência continuar no ano que vem, melhor chamar logo a Larissa Riquelme." (http://g1.globo.com/platb/maquinadeescrever/2011/07/09/pilulas-sobre-a-flip/)

sábado, 2 de julho de 2011

Oscar Wilde


A melhor maneira de começar uma amizade é com uma boa gargalhada. De terminar com ela, também. Oscar Wilde

sexta-feira, 24 de junho de 2011

Shakespeare Furtado


Confesso que não curto muito o cinema de Jorge Furtado. E nem falo dos curtas mais antológicos, como "O dia em que Dorival encarou a guarda" ou "A Ilha das Flores, verdadeiro xodó dos professores de sociologia. Ambos são bem interessantes, inauguram a sua linguagem cinematográfica e blá blá blá. Falo dos longas. Assisti "O homem que copiava e não achei nada demais". Ainda assim, há uma pequena referência aos Sonetos de Shakespeare que de certa forma amarra a relação amorosa dos protagonistas.
O cineasta é um grande apreciador da obra do bardo. Juntando peças, dei de cara com um comentário muito interessante em um blog sobre as traduções orientadas por ele dos Sonetos e fui ver o livro. Gostei, confesso. Já havia visto uma tradução dele para "Alice", também bastante boa. Seu bom gosto literário me leva a assistir os seus filmes. Vou encarar e depois comento aqui. Em homenagem, reproduzo abaixo três versões para o mesmo soneto, duas do Furtado e uma de outro tradutor. Gosto muito das duas do Furtado. Ah, vale dizer que a comparação não é uma idéia minha, é coisa do blogueiro onde li pela primeira vez a resenha da tradução. Simplesmente reproduzo para os milhões de leitores deste blog.
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Farto de tudo, clamo a paz da morte
Ao ver quem de valor penar em vida
E os mais inúteis com riqueza e sorte
E a fé mais pura triste ao ser traída
E altas honras a quem vale nada
E a virtude virginal prostituída
E a plena perfeição caluniada
E a força, vacilante, enfraquecida
E o déspota calar a voz da arte
E o néscio, feito um sébio, decidindo
E o todo, simples, tido como parte
E o bom a mau patrão servindo
Farto de tudo, penso, parto sem dor
Mas se partir, deixo só o meu amor
(Soneto nº 66 por Jorge Furtado, p.82)

De saco cheio, mando tudo às picas
Ao ver só gente boa se ferrando
E as mais escrotas rindo à toa, ricas
E as crentes, puras, só no cú levando
E prêmios dados a um monte de bostas
E virgens puras pagando boquetes
E a perfeição xingada pelas costas
E os fortões entubando croquetes
E a cultura virar supositório
E a chusma de imbecis cagando regras
O bom e simples tido por simplório
O mal triunfa e o bem toma nas pregas
De saco cheio, vão todos se fuder!
Só o que eu não posso é meu amor perder
(Soneto nº 66 por Jorge Furtado, p.83)

Farto de tudo, imploro a morte sossegada
Quando vejo o valor vestido como um pobre
E com luxo trajado o miserável nada,
E perjurada, por desgraça, a fé mais nobre,
E vergonhosamente a honra mal situada,
E a virginal virtude em lama prostituída,
E por coxo exercício a força invalidada,
E a justa perfeição do apreço decaída,
E julgando a perícia a doutoral tolice,
E atando a língua da arte o arbítrio oficial,
E a mais simples verdade achada parvoíce,
E o bem seguindo preso o comandante mal:
Farto, eu queria estar já morto e descansado,
Se não deixasse o meu amor abandonado.
(Soneto nº 66 por Péricles Eugênio)
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Fiz essa postagem no dia 24/06 e aproveito para emendá-la. Meu amigo Nathaniel oportunamente me lembra que não coloquei o original no corpo da mensagem e enviou o mesmo em seu comentário. Puxo o poema do bardo para o corpo da mensagem e agradeço a lembrança. (27/06)

SONNET 66

Tired with all these, for restful death I cry,
As, to behold desert a beggar born,
And needy nothing trimm'd in jollity,
And purest faith unhappily forsworn,
And guilded honour shamefully misplaced,
And maiden virtue rudely strumpeted,
And right perfection wrongfully disgraced,
And strength by limping sway disabled,
And art made tongue-tied by authority,
And folly doctor-like controlling skill,
And simple truth miscall'd simplicity,
And captive good attending captain ill:
Tired with all these, from these would I be gone,
Save that, to die, I leave my love alone."

segunda-feira, 6 de junho de 2011

Um papo sobre ciência e religião

Há algum tempo postei uma entrevista do Michel Onfray sobre o seu "Tratado de Ateologia" aqui no blog. Como tenho feito, coloquei um link no meu perfil do Facebook para o Blog. Por algum motivo estranho, ao invés do debate ficar registrado aqui no Blog, dois dos meus amigos preferiram fazer um bate bola sobre o assunto no Facebook.
Como gostei muito do resultado da prosa deles, resolvi colar aqui. São duas pessoas muito inteligentes, com formações e pontos de vista que convergem em alguns pontos e divergem em outros, sempre de maneira direta e elegante. Aos curiosos seguem as intervenções. Fiquem à vontade para fazer as suas.
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NF - Eagleton, o principal autor do "cultural studies" (do qual gosto muito), fez do neo-ateísmo seu tema no Fronteiras do Pensamento 2010 (http://www.unimedpoa.com.br/mkt/resumo_fronteiras_090810.pdf)Me considero ateu convicto, mas acho que há necessidade de relativizar o ateismo como discurso (pois alguns, como Dawnkins, autor que também gosto muito, tem a limitação de achar que é o portador de uma verdade inabalável).

ES - Acho que autores como o Dawkins, o Sam Harris (excelente) e o Hitchens são muito importantes pela força com que entraram na discussão. Confesso que gosto menos do Eagleton, que é neo-cristão e vê no ateísmoum ataque do imperialismo sobre o mundo. Concordo que o visão de ciência do Dawkins é bastante dura, mas ele se sai muito bem nesse debate.

TSR - O Richard Dawkins é dogmático demais, determinista demais. Radiicalismo gera radicalismo. Neste sentido, o livro "Deus, um delírio" me pareceu meio fanático. Eu compreendo todo atraso que a "religião" causou, mas não se pode pagar com a mesma moeda "cientificamente".

NF - É algo complexo, Taís, pois eu sou baita fã de Dawkins e vivo citando várias idéias suas. Para mim, a religião realmente é um vírus mental que deve ser eliminado, e o discurso científico, ainda que seja falho, levanta-se no campo agonístico... dos discursos como o mais propenso a substituí-lo. Os argumentos do neo-evolucionismo muito me agradam e o livro "Deus- Um Delírio" me possibilitou dar palavras para muitas coisas que eu pensava e não conseguia explicar. Acredito no respeito as diferenças e a intolerância de Dawkins me parece parece um pouco ditatorial, fora que ele deposita suas fichas no discurso científico como A Verdade Inabalável. Ainda assim, acho, como nosso caro professor, que a figura dele e de outros intelectuais ateus na mídia e de fundamental importância para dizer que a religião não é especialista em nada, é intolerante e cega, mete-se em assuntos dois quais mal compreende (como o aborto, células-tronco, legitimação dos movimentos homossexuais) e leva milhões a sandices que só servem para continuar propagando limitações e preconceitos. Ainda que eu ache que o discurso cientificista pregado pelos os ateus (e eu me incluo de certa forma nesse grupo) exagerado, necessitando ser relativizado quando suas pretenções totalizantes, numa discussão em que eu tenha que tomar uma posição, eu fico com os ateus, pois pelo menos com estes há discussão! O discurso científico, com suas limitações, baseia-se em argumentos e aceita o embate, coisa que na religião não existe, por tanto, eu não acho Dawkins "dogmático". Um Racionalista Totalitário, talvez? =D

TSR - Eu entendo, Nathanael o teu ponto de vista, mas já "acreditei" mais na ciência, atualmente tenho mais certeza de que ela é muito limitada em dar explicações sobre o que há entre o céu e a terra, mas não sou religiosa e sou contra o reducion...ismo científico. A nossa incapacidade de medir(estatisticamente) os efeitos, fenômenos, testar hipóteses nos coloca (nós, pretensos cientistas) em xeque todos os dias. Como medir o imensurável como a dor, o sentimento, a felicidade, a democracia, a liberdade. Enquanto isso eu me distraio acreditando que um dia resolveremos esssa charada, mas acho que a religião não é única vilã. Ah tenho minhas dúvidas sobre a capacidade de discussão dos ateus... tu iamginas, por exemplo alguém debatendo de igaul para igual com alguém que almenos respeita a religiosidade, o esse cara não seria ridicularizado no meio ateu, assim como o ateu seria banido do meio religioso. A ciência pressupoe neutralidade MESMO, senão teus resultados serão cheios de vieses, os números tratam diferetes como iguais e seguimos o debate.

ES - Caros Taís e Nathaniel devo confessar que o debate que vamos travando por aqui subverte a lógica fútil do Facebook. O mais interessante é o seguinte dado: a Taís é uma cientista praticante, doutoranda em medicina que se mostra mais reticent...e ao discurso cientificista autoconfiante de Dawkins e Cia do que o Nathaniel e eu, que somos historiadores, o que não deixa de ter lá a sua razão, porque lida com o lado trágico da existência de maneira real e intensa. Digo isso de maneira muito sincera, talvez o nosso ceticismo se manifeste mais facilmente por a nossa posição ser mais confortável. O importante dessa discussão é que acredito ser possível discutir temas de fundo, como a ética, a vida, a morte, deixando de lado muitas das convenções às quais o Nathaniel faz referência. Acredito sinceramente que o pensamento religioso é um dos maiores problemas com os quais podemos nos debater hoje, tanto que meu projeto de pesquisa atual é “Ciência e religião”.

segunda-feira, 23 de maio de 2011

O ateísmo de Michel Onfray


A entrevista de Michel Onfray que segue abaixo foi publicada pela Revista Veja em 2005, ano em que ele publicava seu "Tratado de Ateologia" (diga-se, um belo livro). Por mais que eu não goste da Veja, essa entrevista merece ser lida e discutida.
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Revista Veja
Edição 1906 . 25 de maio de 2005

Entrevista: Michel Onfray
"Deus está nu"

O filósofo francês mais lido da atualidade
diz que as três grandes religiões monoteístas
vendem ilusões e devem ser desmascaradas
como o rei da fábula de Andersen


André Fontenelle

Em um tempo em que a religiosidade está em alta, surpreende o livro que se encontra no topo da lista dos mais vendidos na França desde o mês passado, à frente até das biografias de João Paulo II: Tratado de Ateologia. Escrita pelo filósofo mais popular da França na atualidade, Michel Onfray, de 46 anos, a obra é um ataque pesado ao que o autor classifica como "os três grandes monoteísmos". Segundo Onfray, por trás do discurso pacifista e amoroso, o cristianismo, o islamismo e o judaísmo pregam na verdade a destruição de tudo o que represente liberdade e prazer: "Odeiam o corpo, os desejos, a sexualidade, as mulheres, a inteligência e todos os livros, exceto um". Essas religiões, afirma o filósofo, exaltam a submissão, a castidade, a fé cega e conformista em nome de um paraíso fictício depois da morte.

Para defender essa argumentação, Onfray valeu-se de uma análise detalhada dos textos sagrados, cujas contradições aponta ao longo de todo o livro, e do legado de outros filósofos, como o alemão Friedrich Nietzsche (1844-1900), que proclamou, em uma célebre expressão, a "morte de Deus". O filósofo escreve em linguagem acessível, a mesma que emprega ao lecionar na cidade de Caen, no norte da França. Ali criou uma "universidade popular" que atrai milhares de pessoas a palestras diárias e gratuitas sobre filosofia, artes e política. Gravadas pela rádio pública France Culture, as aulas de Onfray são sucesso de audiência. Os fãs o consideram um sucessor de Michel Foucault (1926-1984), o mais influente filósofo francês do século passado. Em seus livros, Onfray propõe o que chama de "projeto hedonista ético", em que defende o direito do ser humano ao prazer. Uma de suas obras, A Escultura de Si, ganhou em 1993 o Prêmio Médicis, o mais importante da França para jovens autores. Onfray também tem detratores, que o acusam de repetir idéias ultrapassadas. Em dois meses seu Tratado vendeu 150.000 exemplares. De seu escritório em Argentan, Onfray concedeu a seguinte entrevista a VEJA.

Veja – Em sua opinião, só o ateu é verdadeiramente livre?
Onfray – Só o homem ateu pode ser livre, porque Deus é incompatível com a liberdade humana. Deus pressupõe a existência de uma providência divina, o que nega a possibilidade de escolher o próprio destino e inventar a própria existência. Se Deus existe, eu não sou livre; por outro lado, se Deus não existe, posso me libertar. A liberdade nunca é dada. Ela se constrói no dia-a-dia. Ora, o princípio fundamental do Deus do cristianismo, do judaísmo e do Islã é um entrave e um inibidor da autonomia do homem.

Veja – A que o senhor atribui o sucesso de seu livro num momento em que há tanta discussão sobre religiosidade?
Onfray – Acho que muitos franceses esperavam uma declaração claramente atéia. As primeiras páginas de jornais e as capas de revistas sobre o retorno da religiosidade, a polêmica sobre o direito de usar ou não o véu muçulmano na escola leiga, a oposição maniqueísta entre um eixo do bem judeo-cristão e um eixo do mal muçulmano, a obrigação de escolher um lado entre George W. Bush e Osama bin Laden, a religiosidade dos políticos exposta na imprensa, o crescimento do Islã nos subúrbios franceses, tudo isso contribuiu para uma presença monoteísta forte no primeiro plano da mídia. Meu livro provavelmente funciona como um antídoto a esse estado de coisas, pelo menos na França. Ele ainda está sendo traduzido para outros idiomas.

Veja – Seu livro defende um ateísmo "fundamentado, construído, sólido e militante". Isso quer dizer que é preciso convencer as pessoas da inexistência de Deus?
Onfray – Isso quer dizer que, quando uma pessoa não se contenta apenas em acreditar estupidamente, mas começa a fazer perguntas sobre os textos sagrados, a doutrina, os ensinamentos da religião, não há como não chegar às conclusões que eu proponho. Trata-se de não deixar a razão, com R maiúsculo, em segundo plano, atrás da fé – e sim dar à razão o poder e a nobreza que ela merece. Essa é a missão, a tarefa e o trabalho do filósofo, pelo menos de todo filósofo que se dê ao respeito.

Veja – A desconstrução dos três grandes monoteísmos equivale a mostrar que o rei está nu, como na fábula de Hans-Christian Andersen?
Onfray – Sim. É preciso mostrar que o rei está nu, deixar claro que o mecanismo das religiões é o de uma ilusão. É como um brinquedo cujo mistério tentamos decifrar quebrando-o. O encanto e a magia da religião desaparecem quando se vêem as engrenagens, a mecânica e as razões materiais por trás das crenças.

Veja – O senhor cita constantemente trechos do Corão, da Bíblia e da Torá para apontar contradições. Por que razão, se em muitos casos esses trechos nem são mencionados pelos religiosos na defesa de suas convicções?
Onfray – Os sacerdotes limitam-se a usar apenas um punhado de palavras, textos e referências, sempre postos em evidência porque são aqueles trechos que permitem assegurar melhor o domínio sobre os corpos, os corações e as almas dos fiéis. A mitologia das religiões precisa de simplicidade para se tornar mais eficaz. Elas fazem uma promoção permanente da fé em detrimento da razão, da crença diante da inteligência, da submissão ao clero contra a liberdade do pensamento autônomo, da treva contra a luz.

Veja – Seu livro cita contradições entre a pregação da paz e a da violência. O senhor pode dar os exemplos mais marcantes dessa situação?
Onfray – O famoso sexto mandamento da Torá ensina: "Não matarás". Linhas abaixo, uma lei autoriza a matar quem fere ou amaldiçoa os pais (Exodo 21:15 e adiante). Nos Evangelhos, lê-se em Mateus (10:34) a seguinte frase de Jesus: "Não vim trazer a paz, e sim a espada". O mesmo evangelista afirma a todo instante que Jesus traz a doçura, o perdão e a paz. O Corão afirma que "quem matar uma pessoa sem que ela tenha cometido homicídio será considerado como se tivesse assassinado toda a humanidade" (quinta sura, versículo 32). Mas ao mesmo tempo o texto transborda de incitações ao crime contra os infiéis ("Matai-os onde quer que os encontreis", segunda sura, versículo 191), os judeus ("Que Deus os combata", nona sura, versículo 30), os ateus ("Deus amaldiçoou os descrentes", 33ª sura, versículo 64) e os politeístas ("Matai os idólatras, onde quer que os acheis", nona sura, versículo 5).

Veja – O livro ataca com virulência particular o apóstolo Paulo, descrevendo-o como um histérico. Por quê?
Onfray – Basta ler os Atos dos Apóstolos, nos trechos que descrevem a conversão de Paulo, e conhecer um pouco de psiquiatria, ou ter um manual de psicologia ao alcance da mão, para ver quanto os sintomas da visão que originou sua conversão coincidem com os descritos pelos especialistas em histeria: perda de tônus muscular, queda, cegueira momentânea etc. Ao me referir a Paulo, eu não emprego o termo neurose como um insulto de caráter moral, mas como um diagnóstico que pode ser estabelecido por um psiquiatra.

Veja – Há uma diferença entre ser contra as religiões e não acreditar na existência de Deus?
Onfray – É possível acreditar em Deus e viver sem religião. Mas não conheço religião que viva sem Deus. Trata-se do mesmo combate, verso e reverso da mesma medalha.

Veja – Mas não são poucos os que sustentam que a necessidade de Deus é inerente ao ser humano. Há quem acredite que essa necessidade é genética.
Onfray – Essa necessidade é cultivada culturalmente. É claro que não existe. Muito menos geneticamente. Essa é uma idéia ridícula. Não há nada no cérebro além daquilo que é posto nele. Já se viu alguma criança – imagem do que pode haver de mais natural – nascer acreditando em algum deus ou em alguma transcendência? Deus e a religião são invenções puramente humanas, assim como a filosofia, a arte ou a metafísica. Essas criações, é bem verdade, respondem a necessidades, como a de esconjurar a angústia da morte, mas podemos reagir de outra forma: por exemplo, com a filosofia.

Veja – Como o senhor explica o fato de muitos cientistas, diante da impossibilidade de explicar a imensa complexidade do universo, se voltarem para a hipótese da criação divina?
Onfray – O recurso a Deus e à transcendência é um sinal de impotência. A razão não pode tudo. Deve ser consciente de suas possibilidades. Quando ela não consegue provar alguma coisa, é preciso reconhecer essas limitações e não fazer concessões à fábula, ao pensamento mitológico ou mágico. A idéia da criação divina é uma espécie de doença infantil do pensamento reflexivo.

Veja – Como filósofo ateu, como o senhor viu a forte comoção popular pela morte do papa?
Onfray – Tamanho fervor deve ser relacionado com o fato de que João Paulo II foi de fato o primeiro "papa catódico", o primeiro sumo pontífice da era da comunicação de massa. Foi o homem mais filmado do planeta. Logo, era o maior portador da aura que a mídia confere. A maioria das pessoas tem fascínio pelos ícones eleitos pela mídia e acredita mais neles do que na verdade física. Daí a estranha sensação quando a TV prova que por trás daquela imagem divinizada havia alguém bem real, de carne e osso. Isso ficou demonstrado, na morte do papa, pelo uso espetaculoso da exposição do cadáver e pela criação de uma reação histérica entretida e amplificada pela transmissão televisiva.

Veja – O senhor retoma casos recentes e antigos em que o papel da Igreja Católica não foi dos melhores: ataques a Galileu, silêncio diante do holocausto ou do genocídio em Ruanda. Mas é possível encontrar outros tantos exemplos de bons momentos do catolicismo. Isso não mostra que o problema não são as religiões e sim os homens que as interpretam?
Onfray – Não me proponho a escrever uma resposta ao livro O Gênio do Cristianismo (obra de 1802 do escritor francês François-René de Chateaubriand, que refutava os filósofos anti-religiosos de seu tempo). O que quero é mostrar que as religiões, que dizem querer promover a paz, o amor ao próximo, a fraternidade, a amizade entre os povos e as nações, produzem na maior parte do tempo o contrário. Não me parece muito digno de interesse que os monoteísmos possam ter gerado o bem aqui ou acolá. Afinal, é a isso mesmo que eles dizem se propor. Não há motivo para espanto. Em compensação, que se devam a eles tantas barbaridades terrenas, extremamente humanas, me parece muito mais importante como prova da inanidade das doutrinas.

Veja – Críticos católicos alegam que seu livro nada fez senão repetir antigos argumentos contra a religião. Quais são seus argumentos novos?
Onfray – Não se pode fazer muito a respeito, a não ser dizer e redizer o que é verdade há muito tempo. E repetir que os cristãos têm pouca moral para me reprovar por dizer antigas verdades, quando eles mesmos propagandeiam erros ainda mais antigos.

Veja – Não se pode negar que a religião proporciona valores morais e éticos a muitas pessoas que de outra forma não os teriam. Isso, por si, não bastaria para justificar a existência das religiões?
Onfray – Se não houvesse alternativa, certamente. Mas há. A filosofia permite a cada um a apreensão do que é o mundo, do que pode ser a moral, a justiça, a regra do jogo para uma existência feliz entre os homens, sem que seja preciso recorrer a Deus, ao divino, ao sagrado, ao céu, às religiões. É preciso passar da era teológica à era da filosofia de massa.

Veja – O senhor acha que um dia o mundo será predominantemente ateu?
Onfray – Não. A fraqueza, o medo, a angústia diante da morte, que são as fontes de todas as crenças religiosas, nunca abandonarão os homens. Por outro lado, é preciso que alguns espíritos fortes, para usar uma expressão do século XVII, defendam as idéias justas. A questão é converter novos espíritos fortes. Só isso já seria muita coisa.

Veja – Quando e como o senhor se tornou ateu?
Onfray – Até onde consigo me lembrar, sempre fui ateu, a não ser na infância, quando acreditava na mitologia católica como se acredita em Papai Noel ou nas lendas do folclore. A história contada pelo catolicismo tem tanto valor quanto essas. Está no mesmo nível dos contos da carochinha, em que os animais conversam e os ogros comem criancinhas. Assim que um embrião de razão habitou meu espírito, não me importei mais com esse pensamento mágico – que só serve, justamente, para as crianças.

Veja – Do que se trata, exatamente, a "universidade popular" que o senhor criou?
Onfray – Eu criei essa universidade, com um grupo de amigos, três anos atrás, com o objetivo de proporcionar um saber filosófico exigente ao maior número possível de pessoas, de todas as origens, sem distinção de classe, religião, sexo, idade, formação, poder aquisitivo ou nível intelectual. E, ao mesmo tempo, permitir a construção de si mesmo como pessoa livre, independente e autônoma. Organizamos seminários sobre idéias feministas, política, cinema, arte contemporânea ou psicanálise, entre outros. Também temos uma oficina de filosofia para crianças. No que me diz respeito, ensino uma contra-história da filosofia – atéia, materialista, sensualista, hedonista, anarquista.

Veja – Que tipo de público freqüenta seus cursos?
Onfray – O público é indefinível, verdadeiramente popular: jovens, velhos, homens, mulheres, universitários, gente sem diploma, trabalhadores especializados, como pilotos de Airbus e neurocirurgiões, não qualificados ou desempregados, como os demitidos de uma montadora de automóveis da região.

Veja – A idéia está dando certo?
Onfray – O princípio dela já permitiu que se espalhe por cinco ou seis outras cidades. Há outros projetos de expansão.

sábado, 30 de abril de 2011

Mark Twain


Não são as partes da bíblia que eu não compreendo que me incomodam, mas sim as que eu compreendo. – Mark Twain

quinta-feira, 14 de abril de 2011

História abreviada da literatura portátil


Acabei de ler o impagável “História abreviada da literatura portátil”, do espanhol Enrique Vila-Matas. Autor de quase uma dezena de livros já publicados em português, Vila-Matas virou uma espécie de xodó dos escritores e ou pseudo-escritores, assim como dos “iniciados” na arte e na literatura, em especial o modernismo.
Em sua prosa, elegante e imaginativa, se misturam as situações ficcionais que ele criativamente apresenta a elementos das obras e dos autores aos quais ele presta reverência em suas tramas.
Basta fazer uma busca rápida na web para ver o clichê “escritor de escritores” repetido até o saco estourar. E não se trata aqui de negar o óbvio: ele faz um tipo de literatura que se equilibra sobre a linha tênue que separa o ensaísmo da ficção, se é que existe esta tal linha tênue. Dialoga com a imaginação literária ocidental de maneira astuciosa, o que obras como “Bartleby e companhia”, sem contar a “História abreviada da literatura portátil”, comprovam.
Para dar uma idéia do que se trata esse livro, resumiria dizendo que ele parte de uma hipótese ficcional, a criação de uma sociedade secreta de autores “portáteis”, narrada de modo a revelar os seus credos, tais como o nomadismo, celibato, sexualidade extrema e a concisão – só poderiam criar obras portáteis. Fazem parte desse movimento nomes tão diversos como Walter Benjamin, Marcel Duchamp, Céline. F. Scott Fitzgerald e o mago Aleister Crowley. Eram, ao todo 27 porque 27 é o número da conspiração. a partir desse quadro, em que autores são feitos personagens, se estruturam as referências e as situação, ficcionais ou não, que ajudam a compreender as suas vidas e um pouco da história do modernismo europeu no entreguerras.
Se toda a referência ao jogo metaliterário que caracteriza seu trabalho é justa, além de muito repetida, é preciso que se destaque outro elemento importante: é acima de tudo de literatura que falamos, e de boa literatura. Vila-Matas se esquiva do modelo preconizado por Ernest Hemingway, cujos personagens muito agem e pouco pensam, e retoma uma linha que se estende desde o início do romance moderno, desde “A vida e as opiniões do cavalheiro Tristan Shandy”, de Lawrence Sterne, por exemplo. Os personagens e Vila-Matas pensam, são irônicos e praticam com destreza as referências e as brincadeiras com idéias que são uma lufada de ar fresco em meio ao monte de porcarias que são publicadas, quase que todos os dias, aqui e alhures. E por porcarias leia-se: essa penca de “jovens escritores” que repetem fórmulas gastas apresentando personagens sem vida interior.
Sobre a obra do espanhol eu diria mais: Vila-Matas é engraçadíssimo. Ri muito em algumas partes desta história abreviada. Ironias e as chamadas “piadas internas” são abundantes em sua obra. Vou dar um exemplo desse recurso na obra. O autor “cria” os odradeks, espíritos que acompanham e atormentam os artistas em momentos de solidão. Abaixo, Vila-Matas descreve o odradek de Salvador Dalí, em uma passagem maliciosa e cheia de referências às obras e aos delírios do espanhol:
“O odradek de Salvador Dalí tinha um marcante ar festivo e musical e, além do mais, era extremamente erótico. Nada menos do que um violino masturbador chinês ou instrumento melódico provido de um apêndice vibratório, que servia para ser introduzido, de forma repentina e brusca, no ânus, mas também, e de preferência, na vagina. Depois de introduzi-lo, um hábil músico fazia deslizar o arco sobre as cordas do violino, não tocando a primeira coisa que lhe passasse na cabeça, mas sim uma partitura escrita especialmente para fins masturbatórios; o músico conseguia, mediante a sábia dosagem de notas em frenesi, intercalando-as com momentos de calma, que as vibrações amplificadas provocassem o orgasmo da beneficiária do instrumento no preciso e sincronizado momento em que a partitura atacasse as notas do êxtase” (p. 70-1).

Se a função da crítica é ser parcial e emitir juízos de valor, siga esse: acredito que devas ler o Vila-Matas.

quinta-feira, 31 de março de 2011

Divulgação: 1959 - O Ano Mágico do Cinema Francês

Em cartaz de 1º a 10 de abril: Mostra 1959 – O Ano Mágico do Cinema Francês
ENTRADA FRANCA

O CineBancários, em parceria com o Sesc-RS, coloca em cartaz, a partir do dia 1º de abril, a mostra 1959 – O Ano Mágico do Cinema Francês. Foram reunidos cinco títulos produzidos no último ano da década de 50 que impulsionaram o movimento conhecido como Nouvelle Vague. A seleção fica no CineBancários até o dia 10 de abril, às 15h, 17h e 19h, sempre com entrada franca.


A programação reúne uma seleção de obras-primas assinadas por um grupo de diretores à época ainda jovens – Jean-Luc Godard (Acossado), Alain Resnais (Hiroshima, Meu Amor), Claude Chabrol (Quem Matou Leda?), François Truffaut (Os Incompreendidos) – mas que em pouco tempo seriam colocados entre os grandes mestres do cinema.

Os Incompreendidos, por exemplo, deu a Truffaut a Palma de Ouro de Melhor Direção e apresentou oficialmente o Nouvelle Vague ao mundo. Também integra a mostra um título lançado em 1959 de Robert Bresson (Pickpocket), diretor francês que mesmo não fazendo parte do movimento, influenciou-o profundamente.


** TODOS OS FILMES DA MOSTRA PERTENCEM AO ACERVO DO CineSesc


Acossado(À Bout de Souffle), de Jean-Luc Godard. França, 1959, 90 minutos.


De forma inovadora e iconoclasta, narra a fuga de um ladrão parisiense. Após roubar um carro em Marselha e assassinar um policial para não ser preso por excesso de velocidade, Michel Poiccard foge para Paris. Na cidade, apresentada como um dos personagens do filme, o fugitivo conhece Patrícia, uma bela estudante norte-americana. Os dois se envolvem e a jovem torna-se sua cúmplice. Ela esconde Michel em seu apartamento até que ele receba um dinheiro que lhe devem. Logo o procurado sai novamente pelas ruas da cidade e comete pequenos delitos, até ser visto por um informante e receber final trágico. Acossado foi um divisor na história do cinema, propondo uma nova aproximação ao espectador, entre muitas outras inovações técnicas e conceituais.

Nascido em Paris em 1930, Godard viveu a infância e a juventude na Suíça. De volta à França, estudou Etnologia na Sorbonne e, a partir de 1952, atuou como crítico e pensador nas revistas Cahiers du Cinéma e La Gazette du Cinéma. Em 1959, dirigiu seu primeiro filme: Acossado (Ã Bout de Souffle). O longa-metragem, um dos primeiros da Nouvelle Vague - e considerado por muitos como seu mais marcante exemplar -, apresentou diversas inovações narrativas, como a filmagem com a câmera na mão e cortes agressivos. Em 1985, apresentou uma versão modernizada da Virgem Maria em Je Vaus Saiu e Marie. O filme provocou polêmica no Vaticano e foi proibido em diversos países. Entre os principais prêmios de Jean-Luc Godard estão o Urso de Ouro, no Festival de Berlim de 1965, por Alphaville, e o Leão de Ouro, no Festival de Veneza de 1982, em homenagem a sua carreira.


Os Incompreendidos (Les Quatre Cents Coups), de François Truffaut. França, 1959, 99 minutos.



Conta a história do adolescente Antoine Doinel. Desprezado pela mãe e ignorado pelo padrasto, o garoto deixa de frequentar as aulas para ir ao cinema e sair com os amigos. Certo dia, é descoberto pelos pais e esbofeteado em frente aos colegas. Tempos depois, ao plagiar um texto de Balzac e se desentender com o professor, ele abandona a escola definitivamente e foge de casa. Na rua, passa a viver de pequenos furtos, é preso e conhece os métodos de violência dos reformatórios infanto-juvenis. O filme é quase um documentário autobiográfico, com várias ações retiradas da própria vida do diretor. A narrativa é acerca de um dos assuntos mais caros à Nouvelle Vague, técnica e existencialmente: a liberdade.

Criado pelos avós, Truffaut nasceu em Paris, em 1932. Após juventude conturbada, recebeu incentivo do crítico de cinema André Bazin, de quem foi secretário pessoal. Escreveu no periódico Ciné Club du Quartier Latin e na revista Cahiers du Cinéma. Em 1959, realizou Os Incompreendidos, seu primeiro filme. O longa-metragem, quase um retrato real da infância do diretor e uma das primeiras manifestações da Nouvelle Vague, concedeu a ele a Palma de Ouro de Melhor Direção no Festival de Cannes. Jovens problemáticos seriam vistos também em outros filmes do diretor, como O amor aos vinte anos (L'Amour à Vingt Ans), de 1962, e Beijos proibidos (Baisers Volés), de 1968. Após 25 anos de carreira, faleceu dramaticamente em 1984 devido a um tumor no cérebro.


Hiroshima, Meu Amor (Hiroshima Mon Amour), de Alain Resnais. França/Japão, 1959, 90 minutos.



A história assinada pela escritora Marguerite Duras narra o encontro de uma atriz francesa e um arquiteto japonês nos anos 1950. Ela participa de um filme sobre a paz em Hiroshima, cidade recém arrasada pela bomba atômica. Durante uma noite com ele, relembra sua juventude na cidade de Nevers. No período, durante a Segunda Guerra Mundial, ela teve um romance com um soldado alemão assassinado pela Resistência. Na mesma noite, o arquiteto relata os casos de amigos e familiares mortos durante o bombardeio nuclear. Apaixonado, ele pede à atriz para não regressar à França e ficar com ele em Hiroshima. Com diálogos literários, fotografia realista e rompimento da linearidade narrativa, o filme é reconhecido pela crítica como o mais sofisticado e bem-acabado da Nouvelle Vague.


Resnais nasceu em Vannes, na Bretanha Francesa, em 1922. Estudou dois anos de Arte Dramática, porém teve de servir ao exército durante a Segunda Guerra Mundial. O período militar trouxe fortes implicações a seus filmes. Iniciou a carreira no cinema com curtas-metragens e documentários - o mais importante deles, Noite e nevoeiro (Nouit et Brouillard), de 1955, relata os campos de extermínio nazistas. Em 1959 dirige seu primeiro longa-metragem, Hiroshima meu amor (Hiroshima Mon Amour). A obra recebeu o prêmio internacional da crítica no Festival de Cannes. Entre os principais diretores da Nouvelle Vague, Alain Resnais é o único a não escrever os roteiros de seus filmes.


Quem Matou Leda? (À Double Tour), de Claude Chabrol. França/Itália, 1960, 110 minutos.



Se passa entre uma manhã e uma tarde do mesmo dia. Com o uso de flashbacks e vinhetas, o diretor apresenta um thriller de infidelidade, obsessão e assassinato em um vinhedo da Provance. Lá vive Henri Marcoux, pai de uma família completamente desestruturada. O filho, desequilibrado, é um voyeur incontrolável; a filha, noiva de um oportunista; a esposa, uma mulher sem atitudes diante da escancarada traição do marido, amante declarado da bela e jovem vizinha Leda. Mas a jovem é misteriosamente assassinada em sua casa e os personagens tornam-se suspeitos do crime. Inteligente, crítica e detalhista, a narrativa aborda a decadência das relações burguesas na França do pós-guerra. Nessa obra estão as principais características artísticas da Nouvelle Vague francesa nascente.


Filho de farmacêutico, Claude Chabrol nasceu em Paris, em 1930. Estudou Farmácia, Literatura e Direito. Foi publicista do escritório parisiense da 20th Century Fox e crítico da prestigiada revista Cahiers du Cinéma. Estreou na direção em 1958, com Nas garras do vício (Le Beau Serge) e, em 1960, com Os primos (Les Cousins). O primeiro filme recebeu o prêmio Jean Viga e o segundo, o Urso de Ouro no Festival de Cinema de Berlim. Ambos tornaram-se marcos da Nouvelle Vague. Nos anos 1960, produziu quase duas dezenas de filmes, entre eles obras memoráveis como Entre amigas (Les Bonnes Femmes), As corças (Les Biches) e O açougueiro (Le Boucher). Hoje, com 50 anos de carreira, Claude Chabrol é um dos mais respeitados cineastas de todos os tempos.


Pickpocket (Pickpocket), de Robert Bresson. França, 1959, 79 minutos.




Introspectivo e revoltado com a estrutura social, o jovem Michel começa a bater carteiras pelo prazer e a emoção de roubar. Com o tempo, o hábito torna-se uma compulsão. Michel é preso e, na cadeia, reflete sobre seus atos ao perceber o forte choque causado em sua família e amigos. Ainda assim, ao ser solto, une-se a um ladrão veterano e volta ao crime. Sua consciência pesa novamente, agora por ter se apaixonado por Jeanne, vizinha que cuida de sua mãe. Entre os dois nasce uma relação afetuosa, capaz de motivar o protagonista a abandonar a compulsão ao roubo. O filme é uma concretização das teorias de Bresson acerca do cinema: o diretor buscava acentuar a distinção da linguagem cinematográfica em relação a todas as outras.

Nascido em 1901, em Bromont-Lamothe, na França, Robert Bresson graduou-se em Artes Plásticas e Filosofia. Ao deixar a faculdade, trabalhou um breve período como pintor, porém desenvolveu grande interesse pelo cinema. Em 1934 dirigiu seu primeiro filme, o média-metragem Les Affaires Publiques. Durante a Segunda Guerra Mundial, foi enviado como prisioneiro de guerra a um campo de concentração alemão, onde ficou por mais de um ano. De volta a Paris, dirigiu seu primeiro longa-metragem, Anjos do pecado (Les Anges du Péché), em 1943. Entre os filmes mais conhecidos de sua carreira estão as adaptações literárias, como o próprio Pickpocket, de 1959, vagamente inspirado em Crime e castigo, de Dostoievski. Em 1995 recebeu o prêmio René Clair, da Academia Francesa, pelo conjunto da obra. Em 1999 faleceu por causas naturais.


GRADE DE HORÁRIOS


Sexta-feira (1º de abril)
15h – Quem matou leda?
17h - Pickpocket
19h - Hiroshima, Meu Amor


Sábado (2 de abril)
15h – Pickpocket
17h - Quem matou leda?
19h - Os Incompreendidos


Domingo (3 de abril)
15h – Acossado
17h - Hiroshima, Meu Amor
19h - Quem matou leda?


Terça-feira (5 de abril)
15h – Acossado
17h – Os Incompreendidos
19h – Pickpocket


Quarta-feira (6 de abril)
15h – Hiroshima, Meu Amor
17h – Quem Matou Leda?
19h – Acossado


Quinta-feira (7 de abril)
15h – Os Incompreendidos
17h – Pickpocket
19h – Hiroshima, Meu Amor


Sexta-feira (8 de abril)
15h – Quem Matou Leda?
17h – Acossado
19h – Os Incompreendidos


Sábado (9 de abril)
15h – Pickpocket
17h – Hiroshima, Meu Amor
19h – Quem Matou Leda?


Domingo (10 de abril)
15h – Acossado
17h – Os Incompreendidos
19h – Pickpocket



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